Uma estrutura universal do ser humano
fausto azevedo
Numa recente postagem feita em seu canal no Youtube (https://www.youtube.com/post/UgkxoIiqatmt_wkXaIbdK4vjBJTUliVQ6v3K), o antropólogo Carlos Alberto Sanches (https://www.youtube.com/@CarlosAlbertoSanches9) aborda, de forma muito interessante e concisa, o tema, em minhas palavras de uma espécie de natureza humana no que concerne à semelhança do aprendizado obtido por diferentes sociedades em diferentes tempos e locais, sempre que se olha para os céus. Há o elemento essencial que, desde sempre, nos une a todos? Creio que sim. Mas leiamos o autor (advertindo que as notas de esclarecimento e os grifos e negritos são meus).
“Nós ficamos impressionados com as semelhanças e analogias entre os mais diferentes povos e civilizações, e delas extraímos alguma ciência sobre a estrutura universal do ser humano, o esqueleto comum que sustenta tantas diferentes carnes. Pensamos nela como um tipo de inconsciente coletivo*. A tendência mais ou menos hegemônica é a de pressupor que essas semelhanças e analogias se devem ao contato e interação entre estes povos. Contudo, isto não explica senão uma certa parte delas, e não ajuda a entender sua permanência no tempo. O que não se pode negar é que povos e civilizações tão distantes no tempo e no espaço apresentam uma mesma estrutura simbólica, mitológica e “litúrgica” porque estiveram debaixo do “mesmo” céu. Elas se parecem porque tiveram o mesmo professor. Não conheceram as mesmas plantas, não conheceram as mesmas árvores, não conheceram as mesmas frutas, não conheceram os mesmos rios, mas conheceram o mesmo sol e a mesma lua, os mesmos planetas e a mesma eclíptica, e portanto o mesmo script mitológico, a mesma geometria sagrada, as mesmas “ideias”. Na verdade, olhar para o céu, con-siderar**, pensar com os astros, constitui um tipo ancestral de contato com os universais***, em uma época em que (como se supõe) forças profundas mantinham a inteligência humana encoberta pela densa vegetação tribal. Aqui vemos reis, lá vemos a realeza; aqui vemos mulheres, lá vemos o feminino; aqui vemos línguas, lá vemos a linguagem; aqui vemos afetos, lá vemos o amor; aqui vemos velhos, lá vemos a velhice; aqui vemos guerra, lá vemos a belicosidade. Aliás, é por isso que simplesmente olhar para céu sempre representou um risco de tropeçar e cair na idolatria, expressamente mencionado nas escrituras das religiões monoteístas (como em Deuteronômio 4,19, que o Alcorão ecoa na Surata Fussilat, 37), risco que, somado à questão da liberdade da vontade, ajuda a entender por que algumas autoridades da Igreja reprovaram os astrólogos para o povo, ao mesmo tempo em que Papas tiveram astrólogos particulares (Leão X, Paulo III, Júlio II…). Devemos levar a sério o que diziam os platônicos, a saber, que “os astros ensinaram o homem a pensar”. O homem não aprendeu a ler primeiro e depois tentou ler o céu: ele aprendeu a ler com o céu. Logo, sem o céu não podemos lê-lo.”
*O inconsciente coletivo, conceito central da psicologia analítica de Jung, é uma camada profunda e universal da psique, herdada por toda a humanidade, que contém padrões, imagens e predisposições psíquicas ancestrais (arquétipos) que influenciam pensamentos, sentimentos e comportamentos, explicando a similaridade de mitos e símbolos entre culturas diversas sem contato direto, funcionando como uma “biblioteca” de experiências humanas compartilhadas. (Obtido pela IA do Google, em 13/janeiro/2026.)
** siderar = português brasileiro. 2 Grafia adotada no português europeu. Do latim siderare (forma hipotética), “sofrer influência dos astros”. (https://pt.wiktionary.org/w/index.php?fulltext=1&search=siderar&title=Especial:Pesquisar&ns0=1)
*** universais = aquilo que é geral, comum a tudo ou a todos. Na metafísica, são propriedades ou essências compartilhadas por muitos indivíduos particulares. A grande discussão quanto à sua existência (se são reais ou idéias) é a Questão dos Universais, um debate central desde a Antiguidade até hoje, passando por Platão, Aristóteles, pensadores medievais e atuais. (Ver, por exemplo, Raul Landim Filho, A questão dos universais segundo a Teoria Tomista da Abstração, artigo publicado na revista ANALYTICA, Rio de Janeiro, vol 12 nº 2, 2008, p. 11-33.)






