Atendimento ao cliente: (11) 9-9191-6995 - Maria José / (11) 9-6372-2944 - Fausto Azevedo

Artigos

Artigos

Poucas notas sobre o fim das revoluções (ou de nossa humanidade)

fausto antonio de azevedo

Todos conhecem o clássico “manda quem pode, obedece quem tem juízo!”. Todavia, tal dístico já perdeu o sentido, deixou de existir, por se haver esvaziado completamente seu conteúdo antropológico, psíquico e moral. A transformação que a sociedade humana sofreu nos últimos 60-70 anos foi brutal demais – e inesperada demais por conta das tecnologias TIC1 – e jogou por terra todos os sustentáculos do tipo de comportamento parametrizado por aquela expressão. A mutante que tende a operar hoje é a “manda quem seduz, obedece quem não tem juízo (crítico)!”

La Liberté Guidant le peuple – Eugène Delacroix
(1830, óleo sobre tela – Museu do Louvre, Paris)

Vamos a alguma breve análise.

Estamos em tempos dessa tóxica associação entre narcisismo e egoísmo. E cada vez mais alta cada uma das doses (somos a sociedade do egoísmo hedônico e, sobretudo agora, da “doxa”). O efeito é mais do que sinérgico: um desastre no social e no coletivo. A chegada da pandemia pode até ter trazido algum alento para os que pensam-professam algo de caráter mais coletivo: “A pandemia é um golpe mortal no capitalismo. Unirá as gentes.”2, parece ter pontificado o cultuado filósofo esloveno Slajov Zizek. Será? Ou, pelo contrário, vamos percebendo hoje que o capitalismo, no geral, se fortaleceu, e, por exemplo, as grandes fortunas, privadas e empresariais, cresceram nesse período. No coletivo… o que se tem visto é cada um agindo por si e buscando a própria salvação sem olhar o outro e isso tanto para as questões pandêmicas, quanto o demais, posto que tal tendência já se consolidara mesmo antes da eclosão mundial do vírus.

E numa vasta multidão de excessos individuais e individualistas, em que cada qual inventa seus idealizados novos eus nas redes sociais e, via “lives”, ajoelham-se ao novo totemismo, o do poder anônimo, que revolução pode haver, qual mito revolucionário pode se sustentar? Nenhum. Feliz e regozijando-se estão todos os ditadores, tanto os capitalistas-empresariais, quanto os comunistas-socialistas. Ah, idem os liberais!

Qualquer idéia de tessitura social está esgarçada; já se falou de liquefação das sociedades (Zygmunt Bauman) e de cansaço das mesmas (Byung-Chul Han), sociedade do cansaço sim, mas da comercialização (individual) dos mais diferentes aspectos da vida pessoal e das comunidades (como um dos muitos exemplos, o caso da transformação da moradia em hotel temporário…) e é de se questionar se o fermento para que isso se dê não é a troca da antes repressão social pelas atuais formas de sedução. Seduzir em vez de reprimir! Poder em vez de dever! Se sou pobre, sem estudos, excluído, aviltado, desrespeitado, o que for, a sedução dos discursos (governos, autoridades, altos empresários, intelectuais, cientistas, igrejas, etc.) me ensina que posso mudar a situação, basta querer e me dedicar, basta eu me concentrar no meu projeto, em minhas competências & habilidades, sem perder o foco, e será possível! Meu progresso, minha metamorfose, só dependem de mim, e posso triunfar sozinho…

Nossa sociedade está não só individualizada ao extremo, como mercantilizada-monetarizada em praticamente todas suas ações, até mesmo comportamentos como amabilidade, solidariedade, são objeto de valoração e trocas. Tudo para nós se transformou num produto, a lógica da produção & consumo comanda: você é você S/A, as pessoas têm agora suas marcas (não aquelas do tempo e da sabedoria), porém marcas logotípicas!; o “eu” é um produto de cada qual a ser exposto e vendido nas redes sócias, sob o aforismo de “você é seu melhor produto”… E a disputa se torna ensandecida, raivosa, como bem mostram as redes sociais e seus “posts” e comentários e cancelamentos. Estamos, enfim, construindo nossa própria distopia…

Ora, o que se passou é que todos fomos seduzidos, principalmente a partir das facilidades tecnológicas das TIC, a poder tudo – e dever muito pouco: todos podemos atingir os píncaros com nosso próprio esforço, um bom coaching, um Canvas bem feito, etc., e todos podemos exibir pictoricamente nossos avanços e sucessos nas plataformas sociais, e podemos ter nossos próprios canais em plataformas especializadas, podemos publicar nossos artigos e livros e circulá-los pela internet ou coloca-los à venda em sites especializados quase que a custo zero. Todos nos tornamos examinadores, autores, escritores, etc., cada qual realizando sua pequena e tosca revolução individual e, o trágico do processo: a soma dessa miríade de revoluções individuais, com ou sem algoritmos, tende sempre a resultar num redundante zero, isto é, nada em termos sociais. Parece que essa seria a consciência pulverizada da dita pós-modernidade. É possível uma real revolução, que altere ordens, sem ser num plano coletivo, numa ação comum a todos e todos igualmente envolvidos na causa comum? Não creio. Para isso é preciso que se colimem as forças e o senso revolucionário num único inimigo, ou causa, como dito antes. E o que temos hoje é também a vasta pulverização de inimigos. E o grande inimigo para um pequeno grupo pode muito bem nem existir no “ideário” de outro grupo.

Poderemos renascer no depois? Renascer como humanidade, um ente coletivo e único, ainda que em suas diversidades, no qual todos se abrigam e pertencem e se apoiam e realizam um bem comum? Difícil saber.

Espinoza (filósofo que tem sido lido de maneiras bem diferentes, por vezes até opostas), no início de seu Tratado da correção do intelecto – e do caminho pelo qual melhor se dirige ao verdadeiro conhecimento das coisas, diz:

“Desde que a experiência me ensinou ser vão e fútil tudo o que costuma acontecer na vida cotidiana, e tendo eu visto que todas as coisas de que me arreceava ou que temia não continham em si nada de bom nem de mau senão enquanto o ânimo se deixava abalar por elas, resolvi, enfim, indagar se existia algo que fosse o bem verdadeiro e capaz de comunicar-se, e pelo qual unicamente, rejeitado tudo o mais, o ânimo fosse afetado; mais ainda, se existia algo que, achado e adquirido, me desse para sempre o gozo de uma alegria contínua e suprema.”3

Alinhando-me a uma leitura pós-althusseriana, ouso presumir que esse “algo” seja o conhecimento verdadeiro, único, a verdade-em-si – o conatus (impulso do ser de perseverar em sua existência; um esforço no sentido de manter e aumentar a potência de agir do corpo e de pensar da mente). E essa verdade, que precisa ser incessantemente buscada, longe de modismos (não posso deixar de rir, por exemplo, de dois desses ridículos modismos atuais, que são a propalada “empatia” e a ubíqua “resiliência”! Aliás, por falar nesta, todo cuidado é pouco quanto a seu uso manipulador por parte de autoridades mesquinhas4) e de comodidades, mas com um tipo de vontade assemelhada àquela de que falava Schopenhauer, em seguida Nietzsche (com a “vontade de poder”), depois, de certo modo, Freud, com a “pulsão de vida” e Lacan (com o “desejo”), essa verdade que nos desnuda de todos os supérfluos, os tecnicismos, os “cacoetes vivenciais”, daquilo que nos embota, que nos faz pensar como “rebanho”…

Nos dias correntes cada vez mais nos distanciamos do espírito da verdade. O colossal Império das Mentiras, por seus motivos escusos, se apodera de tudo e de todos. Mas é possível buscar verdades, desde que não deleguemos tal busca a formadores de “opinião” e a façamos por motivação própria, sem descanso, de forma crítica, ininterrupta, questionando sempre, saindo da multidão, do senso comum, das mesmices; pagando, se necessário, o preço da solidão, o cansaço das leituras e das pesquisas, das comparações, das dissecações; exercitando uma permanente insatisfação com os próprios resultados obtidos e não descuidando jamais de nossa potência para o amor. Eis uma mínima prescrição de como “darmos sempre voltas de um lado a outro”, fazendo com que a revolução nunca se desinstale.

Notas:

[1] A ponto de estarem, seguramente, influindo na formação de novas subjetividades, estas moldadas por “fenômenos” como: FOMO – “fear of missing out”; “fraping”; “subtweeting”; “selfies” e outros (ver, por exemplo, Ciarán Mc Mahon, A Psicologia da Mídia Social, Editora Blucher, 2021 (https://www.blucher.com.br/livro/detalhes/a-psicologia-da-midia-social-1739), ou, consoante o professor Alfredo Jerusalinsky, a questão do “poder anônimo”, que nos catapulta a uma nova forma de totemismo (https://centropsicanalise.com.br/curso/seminario-teorico-um-novo-totemismo-o-poder-anonimo-2021/)

 

[2] Slavoj Zizek: Coronavirus is ‘Kill Bill’-esque blow to capitalism and could lead to reinvention of communism. https://www.rt.com/op-ed/481831-coronavirus-kill-bill-capitalism-communism/ .

Coronavírus é um golpe estilo “Kill Bill” para o capitalismo e pode levar à reinvenção do comunismo https://pijamasurf.com/2020/03/zizek_sobre_el_coronavirus_un_golpe_letal_al_capitalismo_para_reinventar_la_sociedad/

 

[3] Benedictum de Spinoza. “Tratado da correção do intelecto.” Disponível em: https://www.mediafire.com/folder/j5s094551s4w2/Espinosa

 

[4] Ver Thierry Ribault: https://www.linkedin.com/feed/update/urn:li:activity:6808470745165910016/ .

 

Artigos

Um pouco sobre o amor: quem sabe saber amar?

fausto antonio de Azevedo
para M. L. T.

Orixá – Oxum by Júlia Saccardo: Oxum: orixá feminino da nação Ijexá, cultuada pelas religiões afro-brasileiras. Orixá das águas doces, rios e cachoeiras, da riqueza, do amor, da prosperidade e da beleza. Em Oxum, os fiéis buscam auxílio para a solução de problemas no amor, uma vez que ela é a responsável pelas uniões.

“Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada.”1 Trata-se de uma frase de Freud que se tornou amplamente citada na Internet… E a respeito, o quanto antes for amada a pessoa melhor, não é verdade? Ou seja, já o bebê precisa ser convincentemente amado por mãe e pai e outros, posto que este é o principal cacife a lhe permitir saúde mental no futuro. E precisa ser suficientemente amado…

No entanto, isto do amor é complexo: falam alguns da projeção que fazemos de nossas questões (acertos, desacertos, fantasias, medos, poder, desejos…) naquele objeto de amor, o quanto investimos nele. Se for por aí, parece que amamos no outro algo que é de nós, que é nosso. O notável Fernando Pessoa, neste viés, aprofunda a complexidade: “Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a idéia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso — em suma é a nós mesmos — que amamos..”2, este, outro texto também exaustivamente mencionado na Internet (o perigo dessas frases soltas, de consumo rápido, é o de não transmitir o contexto, nem mesmo o texto…)

E se for para problematizar de vez, recordemo-nos de Lacan: “Amar é dar o que não se tem…a alguém que não quer.” (“L’amour c’est donner ce qu’on n’a pas.”)3 Dar o que não se tem é sinalizar apenas, é “intencionar” o que é somente da ordem da tensão. E, justamente, nos disse Ricœur: “Com amor, estamos no mundo dos sinais: no amor, só podemos receber e dar sinais. (…) E esse gesto ilustra uma das mais famosas máximas lacanianas sobre o amor: ‘Amar é dar o que você não tem’. (…) O que o sujeito pede é que o outro do amor o coloque como amável, para que ele, por sua vez, possa amar.”4 Dar o que se não tem é, portanto, dar a falta, a sua falta, a falta-em-si, vale dizer, o aquilo que constitui o sujeito ao outro. É dar ao outro o próprio ser – porque se é livre para isso, desejando que sua falta venha a ser a suficiência do outro – e com isso o amor se movimenta e nos vemos belos no olhar do ser amado.

Freud falou de “amor de transferência” (o fenômeno da transferência é conhecido desde antes de Freud por outras designações, e é essencial para o processo psicanalítico, apesar das muitas discussões entre as diferentes escolas de psicanálise – ver “Esboço de Psicanálise”), e, para Roudinesco e Plon5, transferência é um “termo progressivamente introduzido por Sigmund Freud e Sandor Ferenczi (entre 1900 e 1909), para designar um processo constitutivo do tratamento psicanalítico mediante o qual os desejos inconscientes do analisando concernentes a objetos externos passam a se repetir, no âmbito da relação analítica, na pessoa do analista, colocado na posição desses diversos objetos. Historicamente, a noção de transferência assumiu toda a sua significação com o abandono da hipnose, da sugestão e da catarse pela psicanálise. Em 1912, em ‘A dinâmica da transferência’, primeiro texto exclusivamente dedicado a essa questão, ele distinguiu a transferência positiva, feita de ternura e amor, da transferência negativa, vetor de sentimentos hostis e agressivos. A estas se acrescentariam transferências mistas, que reproduzem os sentimentos ambivalentes da criança em relação aos pais.”

“Em 1923, em ‘Dois verbetes de enciclopédia: (A) Psicanálise, (B) Teoria da libido’, a transferência foi concebida por Freud como um terreno no qual é preciso conseguir uma vitória. Utilizada pelo analista, ela é, na verdade, ‘o mais poderoso adjuvante do tratamento’. A partir daí, foi o amor transferencial que passou a reter toda a atenção de Freud. Com esse termo ele designou os casos em que o paciente — em geral, uma mulher — declara estar apaixonado por seu analista. Havendo observado que esse era realmente um processo transferencial, uma vez que a mudança de analista era acompanhada pela repetição do sentimento, Freud sublinhou a absoluta necessidade de o terapeuta respeitar a regra da abstinência, não apenas por razões éticas, mas sobretudo para que o objetivo da análise pudesse ser perseguido. Nesses casos, com efeito, a resistência à análise reveste-se da forma de um amor: o trabalho passa a ter por objetivo encontrar as origens inconscientes dessa manifestação que invade a transferência.”6

No ano de 1905, quando da análise de Dora, “Freud teve sua primeira experiência, negativa, com a materialidade da transferência. Ele atestou, a contragosto, que o analista de fato desempenha um papel na transferência do analisando. Ao se recusar a ser objeto do arroubo amoroso de sua paciente, Freud opôs uma resistência que, em contrapartida, desencadeou uma transferência negativa por parte dela. Alguns anos depois, ele qualificaria esse fenômeno de contratransferência.”7

O psicanalista Sandor Ferenczi, amigo, colaborador e discípulo de Freud, já em 1909 alertava para que a transferência surgia nas diversas relações humanas: professor-aluno, médico-paciente, etc. Ele percebeu que ao longo de uma análise, da mesma forma que na hipnose e na sugestão, o paciente colocava inconscientemente o terapeuta numa posição parental8. Podemos, de fato, nos abrigar no ‘ousado’9 clínico húngaro para também ousar arriscando que em todas as nossas relações interpessoais existe um quantum de processo transferencial, seja positivo ou negativo10.

Por outro lado, de Agostinho aprendemos o famoso Ama e faze o que quiseres (dilige et quod vis fac): “Ama e faze o que quiseres: se calares, cala por amor; se gritares, grita por amor; se corrigires, corrige por amor; se perdoares, perdoa por amor. A raiz da caridade existe dentro de ti; só o bem pode brotar dessa raiz”11. Pode-se ver este ensinamento como bastante libertário; o amor, o verdadeiro amor (amor-caridade, que é o que não prende e sim solta, não acumula e sim despoja…) sendo a chave que nos desperta para tal liberdade. Mas, se liberta, impõe a responsabilidade do comportamento estritamente ético. Agostinho diferencia os bens materiais dos espirituais: os bens materiais devem ser usados como meios para que se alcance os espirituais. Eis outro pilar da moralidade de Santo Agostinho, o uti-frui (usar, utilizar e fruir ou gozar). Coisas terrenas são para se usar, mas só as eternas são para fruir. E Luc Ferry e Comte-Sponville assim posicionaram a questão: “Somente quem ama não precisa mais agir como se amasse. É o espírito dos Evangelhos (“Ama e faze o que quiseres”), pelo que Cristo nos liberta da Lei, explica Spinoza, não a abolindo, como queria estupidamente Nietzsche, mas consumando-a (‘Não vim para revogar, vim para cumprir…’), isto é, comenta Spinoza, confirmando-a e inscrevendo-a para sempre ‘no fundo dos corações’. A moral é esse simulacro de amor, pelo qual o amor, que dela nos liberta, se torna possível. Ela nasce da polidez e tende ao amor; ela nos faz passar de uma a outro. É por isso que, mesmo austera, mesmo desagradável, nós a amamos.”12

Em filosofia, de acordo com o dicionário de Abbagnano, os significados que a palavra amor apresenta na linguagem comum “são múltiplos, díspares e contrastantes; igualmente múltiplos, díspares e contrastantes são os que se apresentam na tradição filosófica. Começaremos apontando os usos mais correntes da linguagem comum (…): a) em primeiro lugar, com a palavra Amor designa-se a relação intersexual, quando essa relação é seletiva e eletiva, sendo, por isso, acompanhada por amizade e por afetos positivos (solicitude, ternura, etc). Do Amor, nesse sentido, distinguem-se frequentemente as relações sexuais de base puramente sensual, que não se baseiam na escolha pessoal, mas na necessidade anônima e impessoal de relações sexuais. Muitas vezes, porém, a mesma linguagem comum estende também para esse tipo de relações a palavra Amor, como quando se diz ‘fazer amor’; b) em segundo lugar, a palavra Amor designa uma vasta gama de relações interpessoais, como quando se fala do Amor entre amigos, entre pais e filhos, entre cidadãos, entre cônjuges; c) em terceiro lugar, fala-se do Amor por coisas ou objetos inanimados: p. ex., Amor ao dinheiro, a obras de arte, aos livros, etc; d) em quarto lugar, fala-se de Amor a objetos ideais: p. ex., Amor à justiça, ao bem, à glória, etc; e) em quinto lugar, fala-se de Amor. às atividades ou formas de vida: Amor ao trabalho, à profissão, ao jogo, ao luxo, ao divertimento, etc.; f) em sexto lugar, fala-se de Amor à comunidade ou a entes coletivos: Amor à pátria, ao partido, etc; g) em sétimo lugar, fala-se de Amor ao próximo e de Amor a Deus. Sem dúvida, alguns desses significados podem ser eliminados por impróprios, já que podem ser expressos e designados mais exatamente por outras palavras. Assim: a) a relação intersexual só pode ser chamada de Amor quando é de base eletiva e implica o compromisso recíproco. Evitar-se-á, assim, chamar de ‘Amor’ a relação sexual ocasional ou anônima… O Amor designa, em todos os casos, um tipo específico de relação humana, caracterizado pela solidariedade e pela concórdia dos indivíduos que dele participam; (já o) o desejo, em particular o desejo de posse, não se inclui necessariamente na constituição do Amor, pois, se é discutível que se inclua no Amor sexual, deve ser totalmente excluído do Amor de que se fala em (b), (f), (g).13

Com isso tudo até aqui exibido, Freud, Pessoa, Lacan, Agostinho, Roudinesco, Abbagnano, pode parecer bastante difícil, e até desanimador, amar e saber amar. E nem mesmo cheguei a abordar visões religiosas, como em Cristo, com o “amai-vos uns aos outros” (João, 13: 34-35) ou “se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” e “amai a vossos inimigos” (Mateus 5: 38-47) ou “amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus” (1 João, 4: 7) ou “no amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor” (1 João, 4: 18)… Ademais, há condições para que se possa e se consiga amar, condições para além da escolha de objeto… Penso, por exemplo, na questão da autoconfiança, que, por óbvio, é confiar em si mesmo. Bastante difícil, ou deformado, será intentar amar a outrem quando se é desprovido da confiança em si. Nesta circunstância fica a alma fragilizada e bem suscetível a medos, desconfianças e ciúmes. A autoconfiança em dose adequada (dose adequada é igual a dose não tóxica, o que seria a prepotência) é pré-requisito para se amar com benevolência e desprendimento – aliás é só dessa maneira que pode o amor ser autêntico, florescer e prosperar. Amar, em verdade, é se libertar e libertar o ser amado para seus sonhos e seu caminho. Todavia, a autoconfiança não brota do nada, ela requer precedentes, como autoconhecimento e autoestima. Mas esses já são temas para outra reflexão…

Notas e referências

[1] Sigmund Freud. Correspondência de amor e outras cartas. 1873-1939. Edição preparada por Ernst Freud. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. p. 10-12.

[2] Fernando Pessoa. Livro do Desassossego. 2ª. ed. Por Bernardo Soares. São Paulo: Editora Brasiliense. p. 338. Disponível para baixar grátis em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/vo000008.pdf

[3] Jacques Lacan, ver:

  • O Seminário, Livro 4: a relação de objeto. [Trad. Dulce Duque Estrada.] Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995. Cap. IX – A função do véu. p. 153.
  • O Seminário, Livro 5: as formações do inconsciente. [Trad. Vera Ribeiro; revisão Marcus A. Vieira]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999. Cap. XI – Os três tempos do Édipo (II). p.218.
  • Le Séminaire, Livre 6: le désir et son interprétation. Paris: Éditions de la Martinière, 2013. 140-141.

[4] Jean-Paul Ricœur. Lacan, l’amour. Psychanalyse, v. 3, n°. 10: 5-32, 2007.

Ver:  https://www.cairn.info/revue-psychanalyse-2007-3-page-5.htm?contenu=article .

[5] Elizabeth Roudinesco, Michel Plon. Dicionário de psicanálise. [Trad.: Vera Ribeiro, Lucy Magalhães; supervisão da ed. brasileira Marco Antonio Coutinho Jorge.] Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 766-770.

[6] Idem. p. 768.

[7] Idem. p. 767.

[8] Idem. p. 767.

[9] Maria Nilza Mendes Campos. Biografia de Sandor Ferenczi. Página da Federação Brasileira de Psicanálise na Internet: https://febrapsi.org/publicacoes/biografias/sandor-ferenczi/ . (Acessada em 7/jan./2021.)

[10] Freud, “Em 1912, em ‘A dinâmica da transferência’, primeiro texto exclusivamente dedicado a essa questão, (…) distinguiu a transferência positiva, feita de ternura e amor, da transferência negativa, vetor de sentimentos hostis e agressivos. A estas se acrescentariam transferências mistas, que reproduzem os sentimentos ambivalentes da criança em relação aos pais. (Elizabeth Roudinesco, Michel Plon. Dicionário de psicanálise. p 767.)

[11] Santo Agostinho. Comentário da primeira epístola de São João. [Trad.: Nair de Assis Oliveira.] São Paulo: Paulinas, 1989. p. 8.

[12] Luc Ferry, André Comte- Sponville. A sabedoria dos modernos, dez questões para o nosso tempo. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 120.

[13] Nicola Abbagnano. Dicionário de Filosofia. 5ª. ed. [Trad.: Alfredo Bossi 1ª.ed. / Ivone C. Benedetti revisão, 5ª ed.] São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 38-9.

 

 

Estamos perdendo (ou delegando coletivamente) nossa capacidade crítica?

fausto antonio de azevedo

O irlandês C. S. Lewis (Clive Staples Lewis; Belfast, 29/novembro/1898, Oxford, 22/novembro/1963) foi um autor prestigiado, professor universitário, teólogo, romancista, poeta, crítico literário… De vasta obra, tornou-se bem conhecido pelos escritos envolvendo a apologia cristã: O Problema do Sofrimento (1940), Milagres (1947) e Cristianismo Puro e Simples (1952), e os de ficção, como As Crônicas de Nárnia (1950-56), Cartas de um diabo a seu aprendiz (1942) e Trilogia Espacial (1938-45). Em Cartas de um diabo ao seu aprendiz (dedicada a seu amigo J.R.R. Tolkien), um notável livro que nos traz “as últimas notícias do Inferno e as respostas irrefutáveis do Céu”, Lewis, pelo olhar de Scrutopo, o assistente de alto escalão de “Nosso Pai Abaixo”, compõe um irônico e irreverente retrato da vida e das fraquezas humanas, apresentando-nos a correspondência entre o velho diabo e seu sobrinho Wormwood, um demônio que deve garantir a condenação de um jovem. Cartas de um diabo a seu aprendiz, clássico da literatura cristã, é a uma história envolvente a respeito da tentação, e o triunfo sobre ela. Houve um lançamento da tradução em português no Brasil, em 2017, pela Editora Thomas Nelson (208 páginas): http://www.thomasnelson.com.br/livro/cartas-de-um-diabo-a-seu-aprendiz/ .

O espanhol Juan Manuel de Prada, crítico literário, escritor, autor de diversos trabalhos (https://juanmanueldeprada.com/), apresenta-nos agora seu livro Cartas do sobrinho a seu diabo (https://juanmanueldeprada.com/agendanoticias), homenagem explícita àquela obra de Lewis, no qual nos brinda com uma análise muito contundente e perspicaz da Espanha atingida pelo coronavírus (e tal análise aplicada à Espanha, mutatis mutandis, serve a outros países também…). E o faz, como o título do livro sugere, rendendo proeminência literária a Artemísia, um demônio vaidoso e pródigo a quem foi confiada a devastação do país. Em cartas (31) dirigidas a seu tio Scrutopo, Absinto detalha todos os truques que inventou para infligir o maior dano possível aos espanhóis, antes tão ligados aos desígnios do inimigo: o confronto acirrado entre os negócios de esquerda e direita, a degeneração dos lares de idosos em horríveis “morredores”, da idolatria da ciência, das experiências da biopolítica, da imposição de máscaras em todos os contextos e da destruição da economia nacional em benefício de uma plutocracia da qual os governantes são servos lacaios. E tudo isso enquanto a fé dos homens se extingue, tanto quanto a força dos vínculos e as sustentações morais das sociedades … para sempre? Talvez o mal, afinal, não tenha a última palavra. Pode-se mesmo pensar e questionar a contribuição do filósofo David Hume, quando quer nos ensinar que o “bom” não é mais algo lastreado num critério universal de valor moral, mas é aquilo que nos é útil – mas a que trágicas consequências essa crença e seu relativismo pode nos levar? Ora, talvez uma delas é que hoje o mal não precisa mais se disfarçar para nos aparecer como um bem – ela já pode se exibir explicitamente! Diz-nos Dom Juan Manuel:

“Estas Cartas do sobrinho ao seu diabo não pretendem ser uma obra apologética, mas antes uma crônica satírica muito pungente da crise – política, social, econômica, também religiosa – desencadeada (ou talvez apenas revelada) na Espanha pela praga do coronavírus, alusões muito diretas à realidade mais estrita; crise que, desde o primeiro momento, julguei uma ocasião pitoresca para o mal tirar a máscara e se exibir em todo o seu esplendor angustiante.”

Cartas del sobrino a su diablo
Editora Homo legens,
Lançamento: 21/setembro/2020 (158 páginas),
https://homolegens.com/libro/cartas-del-sobrino-a-su-diablo/ .

Juan Manuel de Prada tem também importante atuação na imprensa escrita, principalmente no jornal ABC e na revista XLSemanal, e no suplemento ABC Cultural. Em 1998 publicou sua primeira compilação de artigos sob o título Reserva Natural, o qual emprestou o nome à primeira seção fixa publicada no jornal “El Mundo”. Seu trabalho jornalístico obteve alguns dos prêmios mais importantes da Espanha: “Julio Camba” (1997); “César González-Ruano” (2000); “Mariano de Cavia” (2006); “Joaquín Romero Murube” (2008). Entre seus livros de artigos publicados destaque-se o “Lágrimas en la lluvia – cine y literatura” (Lágrimas na chuva é o monólogo final do andróide Roy Batty em Blade Runner), compilação de textos sobre cinema e literatura, e, a respeito, veja-se o qualificado e prazeroso programa de cinema e debate, moderado por de Prada, da Intereconomía Televisión (2010-2013), com o mesmo título (vídeos disponíveis no Youtube).

Para saber mais sobre o autor e seu livro:

Para quem quiser mais do tema pandemia:

Para quem quiser mais do tema pandemia:

A dura aceitação: “No estábamos dispuestos a creer lo que veíamos”

publicado por Fausto Antonio de Azevedo

“É como se tivéssemos que ter esperado 21 séculos e uma peste

 para nos darmos conta de que os outros são importantes.”

O filósofo e escritor Fernando Savater

O premiado escritor, professor de filosofia e filósofo espanhol Fernando Savater (Fernando Fernández-Savater Martín, São Sebastian, 21 de junho de 1947), catedrático de Ética na Universidade do País Basco, é autor respeitado, dono de vasta obra, com livros traduzidos para mais de 20 idiomas (ver página oficial: http://www.fernandosavater.com/.) Desenvolveu também o projeto de um abrangente e didático curso de filosofia, “La aventura del pensamiento”, com mais de 20 episódios muito bem elaborados, que vão de Platão e Aristóteles a Santayana e Heidegger, passando pelos obrigatórios Kant, Hegel, Kierkegaard, Foucault, dentre outros (ver lista em: https://www.youtube.com/watch?v=iHrht5-uGyo&list=PL_T7R49ZZhnwEq1YmPXvzLzlRwm5SzrLS).

Read more

Artigos

Ser terapeuta?

Fausto Antonio de Azevedo

palavras-chave: terapeuta, psicoterapeuta, psicanálise, vocação.

Resumo

Faz-se um breve apanhado da origem e da história da palavra terapeuta, desenvolve-se algumas considerações sobre formas de psicoterapia e discute-se o papel de uma verdadeira vocação como elemento constituinte imprescindível para a formação e atuação dos psicoterapeutas.

Read more

Artigos

Prevenção, uma prática em busca de identidade

Maria José Siqueira

5 de abril de 2020 (Esse texto foi escrito no ano de 1992)

O uso de drogas ganha hoje um espaço que chama a atenção tanto das pessoas “do bem”, quanto das pessoas “do mal” e até das “amorfas”. Todos, em algum momento, ou em muitos, conferem ao uso de drogas um papel principal numa cena, ou em muitas, da sua rotina de vida.Read more

Artigos

Educadores Podem Promover e Proteger a Qualidade de Vida e a Vida?

É importante frisar que quando nos referimos e educadores estamos falando de qualquer adulto referência que desenvolva ações educativas, dentro ou fora das escolas. Assim, são também educadores os profissionais que trabalham com projetos sociais, com abrigos, casas de passagem ou qualquer outro espaço que se dedique a cuidar do processo de formação integral de crianças, adolescentes e jovens.

Read more

Artigos

Princípios de Uma Abordagem Ressignificada da Valorização da Vida

(síntese do texto “Prevenção, uma prática em busca de identidade”)

Maria José Siqueira
Psicóloga, Especialista em Saúde Pública e Educadora Social

A análise feita história da prevenção no Brasil, a clareza das contradições explicitadas e a certeza de que novos caminhos devem ser buscados foram fatos que me mobilizaram na busca de alternativas para o desenvolvimento de programas preventivos e a ressignificação da abordagem preventiva centrada na Valorização da Vida.

Read more