Hildegarda e sua abordagem religiosa e fitoterápica da melancolia
fausto antonio de azevedo
Quando a consciência da alma na pessoa não percebe nada da tristeza, perigo, e maligno nos sentimentos humanos, então seu coração se abre para a alegria, como flores abertas em direção ao calor do Sol .
(Hildegarda de Bingen, Causae et curae, 149 – 12)
Deus dotou o homem de razão. O homem é racional por causa da Palavra de Deus (…). Por isso Deus fez com que o homem incorporasse toda a Criação. E deu duas asas à razão: a asa direita significa o conhecimento do bem; a asa esquerda o conhecimento do mal.
(Carta de Hildegarda a cinco abades, Cartas seletas de Santa Hildegarda,
Minha Biblioteca Católica, p. 183)
Vai texto confuso, como confuso está hoje meu pensamento e suas possibilidades,
tal seu grau de desordenamento entrópico pelas miríades de teses e antíteses
a que me submeto!… (Anônimo)

Physica
Enciclopédia sobre características e utilidade dos elementos mais comuns e abundantes na Criação, escrita em 1150-1158. Primeiro livro de ciências naturais do Sacro Império Romano-Germânico e base para o estudo botânico na Europa em toda a Baixa Idade Média até o séc. XVI.
Compõe-se de nove partes, que descrevem diversas criaturas e substâncias vegetais e minerais presentes na natureza, indicando seu uso terapêutico para a prevenção e cura de males físicos, mentais e espirituais do ser humano. Cada capítulo define um elemento segundo os vetores frio-quente e seco-úmido, explica suas virtudes e perigos e conclui com sua forma de preparação e utilização. (cf. Ecclesiae)
https://ecclesiae.com.br/physica-livro-de-medicina-simples

Melancolicus – gravura do artista alemão Virgilius Solis, o Velho (1514-1562), faz parte da série de obras que retratam os quatro humores em jovens mulheres. A cena apresenta o elemento terra, associado à melancolia. A imagem retrata uma jovem desenhando sentada em um banco de pedra. Pessoas com excesso de bílis negra eram consideradas melancólicas. Essas pessoas também eram consideradas vigilantes, ciumentas e tristes. A descrição moderna de uma pessoa como depressiva ou “melancólica” vem dessa antiga teoria médica.
O quadro psicopatológico hoje denominado depressão, que, infelizmente, porta o desabonador título de mal do século (mas de qual século, como alguém já questionou[1]) tem atingido um número assustador de homens e mulheres, crianças, adultos e idosos em todos os quadrantes do planeta. Um dado apresentado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), aponta que o mal afeta mais de 264 milhões de pessoas no mundo, cifra bastante expressiva tanto sob o ponto de vista da Saúde pública, quanto da indústria farmacêutica.
Por que mal do século? De que se trata este mal? Ele, como substantivo masculino, refere-se, dentre outros significados, conforme o dicionário eletrônico Caldas Aulete (https://www.aulete.com.br/mal ), a: “14 O contrário do bem, tudo que se opõe à virtude, à honra, à moral. / 15 Tudo o que ocorre para o dano ou ruína de outra coisa. / 17 O que é nocivo, prejudicial: Todos sabem o mal que o cigarro faz. / 18 O que faz sofrer, infortúnio. / 21 Doença, enfermidade: O mal que o atacou é de difícil cura: Há cinco anos sofre do mal de Parkinson.” Quanto ao aspecto Teológico, prossegue o conceituado dicionário, “25 O maligno personificado; Diabo; Satanás.”
De acordo com outro respeitado dicionário, o de filosofia, de Abbagnano:
“MAL(gr. xò KOCKÓV; lat. Malim. in. liril; fr. Mal; ai. Base, it. Mede). Este termo tem uma variedade de significados tão extensa quanto a do termo bem, do qual é correlativo. Do ponto de vista filosófico, entretanto, é possível resumir essa variedade em duas interpretações fundamentais dadas a essa noção ao longo da história da filosofia: 1- noção metafísica do M. segundo a qual este é a) o não-ser, ou b) dualidade no ser; 2- noção subjetivista, segundo a qual o M. é o objeto de aptidão negativa ou de um juízo negativo”.[2]
Observando a “noção metafísica do mal”, tópico a, conforme acima, fica quase obrigatório tecer o comentário de que no deprimido há como que a presença simultânea de um não-ser dele próprio, ou seja, passou a nele existir uma dualidade em seu ser, o ser de antes da doença, quando ele era e se reconhecia de uma dada maneira usual, com a qual se habituara, vivia e produzia, e outro ser, porém, ele mesmo, mas recente e invasor, que não quer, não deseja e não se realiza, vale dizer, não mais realiza suas potencialidades humanas.
Aprofundando mais um pouco a questão do mal, veja-se o que nos traz Roberto Passos Nogueira logo no início de seu capítulo para o livro Instituições e desenvolvimento no Brasil: diagnósticos e uma agenda de pesquisas para as políticas públicas.[3]
“Em diversas línguas modernas, a palavra que designa enfermidade está relacionada com a noção de mal, por exemplo, maladie, em francês, e illness, em inglês. Em português e espanhol, fala-se de mal de Alzheimer e mal de Chagas; em português de origem popular, maluco, ‘alguém que está mal da cabeça’
“Muitos podem pensar que essa qualificação da enfermidade como mal resulta de uma influência da teologia cristã sobre a linguagem médica e popular. Mas, historicamente, aconteceu justamente o inverso – foi a medicina de Hipócrates (nascido em 460 a.C.) e de Galeno (nascido em 129 d.C.), com seu entendimento da enfermidade como desordem (transtorno, distúrbio), que forneceu os fundamentos para que a teologia cristã medieval pudesse pensar o pecado como uma desordem essencial da criatura humana.” (Grifo meu.)
Aliás, outras importantes ocorrências também foram caracterizadas como “mal do século”. A ver, por exemplo, o mal du siècle, como o Visconde de Chateaubriand (François-René Auguste de Chateaubriand) se reportou, já naquela altura, à debilitação de crenças e valores que percorria a Europa do século XIX na moldura do romantismo. Uma de suas frases célebres teria sido: “As ciências explicam tudo para a inteligência e nada para o coração”. O mal du siècle diria respeito ao “vazio existencial” que o racionalismo iluminista outorgava às pessoas, uma forma de sentimento geral, com marcos como o apresentado no muito famoso romance Werther, do consagrado escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, livro este acusado de haver produzido uma onda de suicídios. Não se pode esquecer, por óbvio, de todo fluxo de uma literatura que se nutria de morbidez e personagens doentias e de poetas mal-ditos, como Charles Baudelaire[4] e Arthur Rimbaud, Stéphane Mallarmé, Paul Verlaine, dentre outros.
No eixo da história humana, desde tempos idos, as doenças são comparadas a males, frequentemente, mas nem tanto quanto se deveria desejar, como males do corpo e do espírito. E não seria esse um modo adequado de entendermos aquilo que nos passa? Noutras palavras, pergunto se é mesmo possível o corpo adoecer, ele apenas e nada mais, sem a correspondente debilitação da alma, do espírito. Ocorre que com a triunfal vitória do modo de pensar/ser iluminista e positivista, sobretudo a partir dos 1800, o corpo (organismo) se estabeleceu como supremacia do eu e tudo que seria da ordem metafísica deste ficou discriminado e relegado. Ora, tal fato passou a cobrar seu preço!
Por falar em preço, parece que a conta chegou – e agora sob a forma de perversão, o novo mal do século… Permitindo-me breve digressão, escreve a respeito Marli Piva Monteiro:
“O novo sujeito do século do progresso pretende-se onipotente como se desconhecesse limites para o prazer e o desejo. Para ele não há leis nem obstáculos, mas há um preço a pagar no novo mundo. O mal do século não é mais a depressão, mas a perversão”.[5]
Ainda conforme a autora, no primeiro parágrafo de seu apontado artigo:
“Tem-se afirmado, repetidamente, que a depressão é o mal do século. No entanto, acredito que valha a pena questionar a afirmação. Não é que se possa negar o grande contingente dos ditos deprimidos, que vai desde a baixa de humor, a apatia, o desânimo e o pessimismo, até os conteúdos nostálgicos e tristes, que emprestam colorido acinzentado à vida. Nem tampouco pode-se ocultar o fato do aumento de prevalência da doença depressiva em suas multifacetadas apresentações. É verdade que a depressão tem sido responsável por muitos estragos em muitas vidas e bolsos – que o confirmem os receituários recheados de Prozac ou as farmácias naturais que preparam as fórmulas dos famigerados Florais de Bach. Para não falar das depressões mascaradas, constantes presenças nas salas de espera dos médicos de todas as especialidades, e responsáveis por tantos tratamentos e exames desnecessários e até cirurgias inúteis”.[6]
Contudo, é-me forçoso retornar ao tema melancolia / tristezas / tédio / depressão.
Melancolia e Depressão
Entende-se que a depressão é uma forma de perturbação do humor manifestada por um tipo de apatia provocada por um impacto emocional, identificável ou não. Caracteriza-se por um esvaziamento da existência, a perda de uma forte ilusão[7], o esvaziamento do próprio eu. Justamente a esse propósito, tão perfeitamente explicou o poeta e pensador português Fernando Pessoa, por intermédio da pena de Bernardo Sores:
“Tão dado como sou ao tédio, é curioso que nunca, até hoje, me lembrou de meditar em que consiste. Estou hoje, deveras, nesse estado intermédio da alma em que nem apetece a vida nem outra coisa. E emprego a súbita lembrança, de que nunca pensei em o que fosse, em sonhar, ao longo de pensamentos meio impressões, a análise, sempre um pouco factícia, do que ele seja.
“Não o sei, realmente, se o tédio é somente a correspondência desperta da sonolência do vadio, se é coisa, na verdade, mais nobre que esse entorpecimento. (…)
“Dizer que é uma angústia metafísica disfarçada, que é uma grande desilusão incógnita, que é uma poesia surda da alma aflorando aborrecida à janela que dá para a vida (…)
“O tédio… Pensar sem que se pense, com o cansaço de pensar; sentir sem que se sinta, com a angústia de sentir; não querer sem que se não queira, com a náusea de não querer (…)
“O tédio… Sofrer sem sofrimento, querer sem vontade, pensar sem raciocínio… É como a possessão por um demônio negativo, um embruxamento por coisa nenhuma. (…)
“O tédio… É talvez, no fundo, a insatisfação da alma íntima por não lhe termos dado uma crença, a desolação da criança triste que intimamente somos, por não lhe termos comprado o brinquedo divino. (…)
“O tédio… Quem tem Deuses nunca tem tédio. O tédio é a falta de uma mitologia. A quem não tem crenças, até a dúvida é impossível, até o ceticismo não tem força para desconfiar. Sim, o tédio é isso: a perda, pela alma, da sua capacidade de se iludir, a falta, no pensamento, da escada inexistente por onde ele sobe sólido à verdade”.[7] (Grifo meu.)
É ou não, a lavra do Fernando acima, além de um poderoso texto de filosofia/religião, também uma notável aula de psicanálise? Discorde quem puder…
Depressão! Há um duplo definir para a depressão, ou, melhor pensando, dois referenciais distintos: 1- o descritivo, que vê a depressão como síndrome, isto é, um conjunto de sinais e sintomas típicos, sem levar em conta suas causas (mais ao gosto da psiquiatria); 2. o analítico, que busca relacionar a depressão com suas causas e os mecanismos inconscientes que a explicam (mais ao domínio da psicanálise). Ou, segundo o que preconiza o psicanalista argentino Luis Hornstein, “Para além de descrever os sintomas, as inibições, os traços de caráter, há que se elucidar os conflitos (psíquicos) que os produzem”.[9]
Outro conhecido psicanalista argentino, Juan-David Nasio, entende que “A depressão não é uma afecção em si, é o sintoma de outra afecção que chamamos neurose. Afirmemos claramente: a depressão é a manifestação de uma neurose que se descompensou”.[10] Assim sendo, preconiza Nasio que a ação psicanalítica do analista deve focar na neurose causadora mais do que em aspectos da própria depressão e que, uma vez aliviado o paciente de sua descompensação (da neurose subjacente), ele, automaticamente, se aliviará da depressão.
É conveniente, também, uma referência à teoria da psicanalista brasileira Maria Rita Kehl, que entende ser a depressão uma insuficiência na transposição, por meio de narrativas, de vivências para experiências: o que é vivenciado e narrado atinge, então, o status de experienciado. Se esse processo não se dá, por exemplo por conta da rapidez (velocidade) alucinante das sucessivas vivências do dia a dia e a consequente “aceleração” do tempo hoje, então restará apenas a sensação de vazio e de um tempo não vivido[11]. É interessante ressaltar que para ela “Freud não tem uma teoria da depressão”. Ele, em sua vasta obra, aborda a questão da melancolia no importante texto “Luto e Melancolia”[12] Freud assim teoriza:
“A melancolia se caracteriza psiquicamente por um desânimo profundamente doloroso, por uma suspensão do interesse pelo mundo externo, pela perda da capacidade de amar, pela inibição da capacidade para realização e pelo rebaixamento da autoestima, que se expressa em autorrecriminações e autoinsultos, até atingir a expectativa delirante de punição. Para que tal configuração se aproxime melhor do nosso entendimento, precisamos considerar que o luto apresenta esses mesmos traços, menos um: falta nele a perturbação do sentimento de autoestima. No resto, ele é o mesmo”.[13]
Laplanche e Pontalis, no “Vocabulário de Psicanálise”, discorrendo sobre a “Posição depressiva”, relativamente ao pensamento de Melanie Klein, citam Freud e Abrahan, e dizem:
“Esses autores situaram em primeiro plano, na depressão melancólica, as noções de perda do objeto amado e de introjeção, procuraram para esta pontos de fixação no desenvolvimento psicossexual (segunda fase anal, segundo Abraham), e sublinharam, por fim, o parentesco entre a depressão e os processos normais, como o luto”.[14]
Mais ainda sobre melancolia, num bom olhar filosófico e histórico, pode ser encontrado no trabalho da professora Marcela Cristina dos Santos intitulado Bile negra: da melancolia à corrupção dos afetos.[15] A autora nos informa da primeira citação aproximada do que pode ser entendido como estado melancólico, a qual ocorre na Ilíada, de Homero, do século VII a.C., quando da referência a Belerofonte.
Como seria de se esperar, lá na antiguíssima era do saber grego, também Aristóteles discorre sobre melancolia e de uma forma bastante curiosa na sua Problemata[16]. Conforme registrado no artigo Melancolia e Depressão: Um Estudo Psicanalítico, por Elzilaine Domingues Mendes e colegas:
“Ainda no século IV a. C., a noção de melancolia é revolucionada pelo Problema XXX 1. Trata-se de uma monografia sobre a bílis negra, que é atribuída a Aristóteles. Aristóteles define a melancolia como um estado originário da bílis negra que corresponde aos homens de exceção, aos homens que são considerados gênios. Todos os que têm sido homens de exceção, os filósofos, os poetas, os artistas, são manifestamente melancólicos. Eles têm uma propensão a seguir a imaginação que é inseparável da memória. Desta forma, a partir de Aristóteles a melancolia é associada à imaginação”.[17] (Grifo meu.)
Retomando Sigmund Freud, ele, num momento histórico que transita entre os séculos XIX e XX, dedicada e milimetricamente, tece sua teoria da gênese das neuroses, conferindo papel de destaque para a repressão da sexualidade, posto que o afeto (ou material) recalcado no inconsciente (este próprio, seja na primeira seja na segunda tópica freudiana, robustamente apontado e desenhado) não cessa de atuar, de exercer sua pressão, até encontrar uma válvula de alívio na forma de uma neurose e seus sintomas, como um “compromisso”, uma compensação que permite um… remediado viver. Todavia, alguém já deve ter perguntado: “mas e agora, tempos do hoje, em que se vive o resultado de uma apoteótica ‘des-repressão’ da sexualidade e o imperativo do superego passou a ser, opostamente a antes, a obrigatoriedade do gozo, como bem nos ensinou Jacques Lacan”, como fica?
O que está sendo reprimido hoje? Autores diversos identificam e debatem hipóteses, e quero destacar um raciocínio em especial: Hans Küng, filósofo e teólogo suíço, que analisa o ‘ateísmo’ de Freud em sua obra Freud e a questão da religião [18] Ele, como cristão, reage contra a repressão à religião posta em marcha pela psicologia e procura reconciliar essas duas áreas. Vamos então falar de uma repressão atual da espiritualidade vis-à-vis a repressão da sexualidade do antes. Küng comenta como os teólogos e os psicólogos têm a aprender uns com os outros e o quanto podem cooperar a fim de que o homem moderno encontre um (novo) sentido espiritual para a vida. Ele mostra que as teses de Freud contra a religião são teologicamente descabidas e se posiciona contra a repressão à espiritualidade, ressaltando que no processo psicoterápico a fé deve sim ser abordada, desde quando já seja componente da vida das pessoas, e que tal atitude não caracterizaria uma psicoterapia religiosa, mas que o fenômeno da religião/religiosidade estaria sendo considerado. Kung foi merecedor do prestigioso prêmio Oskar Pfister Award, da American Psychiatric Association (APA), no ano de 1986 (Ver: https://en.wikipedia.org/wiki/Oskar_Pfister_Award).
Finalmente, vamos concordar em que, sob um ponto de vista de colorido psicanalítico, bem ao modo de Nasio, a depressão é uma resposta dolorosa e enraivecida do psiquismo da pessoa à perda de um objeto de amor, amado (investido) com um amor enfermiço – objeto este assumido como imperdível pela pessoa futuro deprimido e pelo qual nutria sua ilusão de um eu hiper ideal, e, dessa forma, completa e plenamente amável. Perdido tal objeto (de amor-desejo), perde a pessoa a ilusão em si mesma, e se isso acontece perde, em decorrência, a força para afirmar o desejo de viver! E, ainda mais, acrescentando uma pitada oferecida por outro grande psicanalista francês, Jean Laplanche, nota-se que o deprimido como que viveria num tempo que não passa… o que é uma característica típica de sua relação com o tempo, com total ausência de uma perspectiva (desejo) de um depois, um amanhã! Tal tipificação me faz cogitar de um verdadeiro mal da alma, do espírito, para mais além até do psiquismo básico.
Ora, a perda de uma grande ilusão nos remeterá ao desestímulo, à perda da esperança, à consternação, à perda do entusiasmo. Todavia, sob o ponto de vista religioso, sobretudo católico, não haveria sentido em se perder a esperança. Como filósofos católicos e teólogos já mencionaram, a perda da esperança, preâmbulo da depressão, seria obra do Maligno, posto que o católico projeta sua vida e sua esperança no encontro posterior com Cristo-Deus, o que não pode ser aceito por aquela entidade protagonista do mal / dos males. Fazer com que se perca a esperança só pode ser, de acordo com a teologia cristã, uma obra do próprio Diabo[19]. Bom que se veja, a respeito, o instigante livro de C. S. Lewis (Clive Staples Lewis): “Cartas de um diabo a seu aprendiz” (1942). Criar e manter a esperança no coração humano é obra e graça de Deus. A esperança tem origem divina, é um projeto de futuro que Ele oferece para a vida das pessoas, conforme bastante assegurado pelas Escrituras. E tais ensinamentos bíblicos são mais do que aquilo que todo humano sensato é levado a perceber, defender e praticar. Uma vida sem esperança futura, sem um projeto de porvir será uma vida estacionada, cristalizada. É um futuro ideal/idealizado na forma de um sonho acalentado, com seus devidos componentes e mecanismos, que nos impele à vida. Ter pulsão de vida e ter um sonho em ação é não haver congelado a própria energia e colocá-la à disposição da consecução de um desejo maior. Veja-se por aí, em paralelo, a ação psíquica do ideal do eu freudiano em seus diversos aspectos e características.[20]
A melancolia e Hildegarda

A disposição melancólica. Calendário alemão de 1498. Pierpont Morgan Library. No mundo germânico, na Inglaterra, na França: a melancolia no alvorecer da Modernidade não conhecia fronteiras (https://www.nlm.nih.gov/exhibition/shakespeare-and-the-four-humors/index.html#section2)
Hildegarda de Binchen, em pleno século XII, na obra O livro dos méritos da vida[21], um rico estudo sobre o pecado (vícios) e a virtude, menciona quadros de tristeza (que teriam contornos melancólicos[22]) associados aos vícios da alma, uma patologia que para nós, nesses nossos tempos, fica enquadrada no ‘espectro’ da ‘depressão’. Na época de Hildegarda era corrente a palavra melancolia. Por outro lado a palavra depressão ainda não existia. É mister ressaltar que a maneira de Hildegarda ver as doenças, digamos assim, sua cosmovisão, nunca se reduzia ao plano meramente material da realidade corpórea, mas, pelo contrário, abrangia além do próprio organismo físico, toda a extensão da imaterialidade representada por alma e espírito, isso também se aplicando aos próprios elementos da natureza. Destarte, uma doença que se evidenciava em sinais e sintomas no corpo, necessariamente teria sua contrapartida na alma (psique) e no delicado balanço entre vícios e virtudes que podem nos acometer.
O verbete “melancolia” tem origem na Grécia antiga (de μέλας = mélas, “negro” e χολή = cholé, “bílis”), significando um estado pessoal de tristeza (profunda) com repercussões religiosas, psicológicas e físicas. O médico grego Hipócrates (460-370 a.C.), considerado o pai da Medicina e a quem se atribui o famoso Juramento que leva seu nome (que é prestado pelos alunos de medicina quando se graduam, e que, infelizmente, é tão maltratado na atualidade), entendeu, no século V a.C. – repito –, que a melancolia era uma doença, explicada por sua teoria dos quatro humores: sangue, fleugma ou pituíta, bile negra e bile amarela, e era a proporção ideal entre os quatro que mantinha ou (equilíbrio) a eucrasia (estado de boa saúde) ou (desequilíbrio) a discrasia (doença). Um relativamente recente e bom apanhado sobre a história da melancolia, desde tempos bíblicos até os séculos XIX e XX, nos foi proporcionado por Corás e Emilio em seu livro “História da melancolia”.[23]
Conforme consta no folheto do evento Literatura e Psicanálise – “O excesso da bile negra: o percurso da melancolia e a escrita de Brás Cubas”, promovido pelo Centro de Estudos Psicanalítico, São Paulo, “O entendimento sobre a melancolia transformou-se ao longo dos séculos. Partindo de um lugar de genialidade e passando pelo diabólico afastamento do sagrado, alcançamos o entendimento dessa forma de sofrimento psíquico como sendo algo de ordem narcísica”. (Ver: https://centropsicanalise.com.br/turma/LP022025.)

Melancolia I
Gravura de Albrecht Dürer, 1514
(No período do Renascimento, o cão, sobretudo o cão galgo, era tido como um símbolo da melancolia.)
German Elías Berríos, professor de Psiquiatria na Universidade de Cambridge e profundo conhecedor da psicopatologia descritiva, nos diz que:[24]
“É durante o iluminismo que o médico William Cullen emprega pela primeira vez o termo ‘neurose’, e classifica a melancolia como ‘uma alteração da função nervosa, e não, como outrora se pensava, dos humores’. No século 19, pela primeira vez, o termo ‘depressão’ surge com um sentido mais próximo ao atual, enquanto o termo ‘melancolia’ poderia estar associado a qualquer tipo de loucura. Por volta de 1860 a palavra começa a aparecer nos dicionários médicos, e surgem tratamentos mais ‘humanizados’ aos loucos. O médico Philippe Pinel classifica a melancolia como doença e destaca a predisposição desses pacientes a cometerem suicídio”
Na literatura brasileira, Machado de Assis, plenamente senhor de seu talento e ironia oferece-nos, no romance Memórias póstumas de Brás Cubas, o personagem que nomeia o livro, com traços peculiares de psicologia que bem se pode considerar da ordem da melancolia. Esta palavra, inclusive, surge várias vezes ao longo do livro, por exemplo:
- “Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio.”
- “Essa idéia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplastro anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade.”
- Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, – flagelos e delícias, – desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana”.

Quadro dos quatro humores adaptado de Optick Glasse of Humors, Thomas Walkimgton, 1639 (https://www.nlm.nih.gov/exhibition/shakespeare-and-the-four-humors/index.html)
Retornando à palavra depressão, e ainda segundo o antes referido German E. Berríos, seu uso, como se viu, remonta aos idos de 1860 ou menos:
“A citação de Delasiauve contém um dos primeiros usos técnicos da palavra ‘depressão’. Em 1860, no entanto, a palavra já era encontrada em dicionários médicos ‘aplicado ao rebaixamento dos espíritos de pessoas que sofrem com a doença’ (Mayne, 1860, p. 264). É importante perguntar por que este termo foi necessário. Parece ter sugerido tanto uma ‘redução’ fisiológica quanto metafórica da função emocional e, portanto, tinha a capacidade semântica para nomear fosse uma condição ou um ‘sintoma’. Desta forma, os pontos de vista teóricos anteriores de Griesinger (1867) e as descrições folclóricas da melancolia (como tristeza) poderiam ser reconciliados. Isto é bem ilustrado na primeira (1885) – de muitas – edições do manual de Régis, onde a depressão é definida como ‘o estado oposto à excitação. Consiste em uma redução da atividade geral que vai desde falhas menores na concentração até a paralisia total…’ (p. 77).
“Médicos clínicos gerais também parecem ter preferido a depressão à melancolia ou lipemania, talvez porque o termo evocava uma explicação ‘fisiológica’. Sir William Gull (famoso pela anorexia nervosa) a teria usado tão cedo quanto 1868, em seu artigo clássico sobre ‘hipocondriasis’: ‘sua principal característica é a depressão mental, que ocorre aparentemente sem causa adequada…’ (Gull, 1894, p. 287). Até o final do século, ‘depressão’ se tornou sinônimo de melancolia: ‘uma condição caracterizada por um afundamento dos espíritos, falta de coragem ou iniciativa, e uma tendência a pensamentos sombrios. O sintoma ocorre em condições debilitadas do sistema nervoso, como a neurastenia, e é especialmente característico da melancolia’ (Baldwin, 1901, p. 270). Savage (1898) em seu muito popular Insanity and the Allied Neuroses (estudado por muitas gerações de estudantes clínicos do Reino Unido) definiu a melancolia como ‘estado de depressão mental, em que o sofrimento não é razoável…’ (p. 151)”.[25] (Grifos meus.)
Regressemos a Hildegarda: a santa nos conta de suas visões de nossas almas e engendra uma espécie de teatralização de nossos pensamentos e sentimentos costumeiros, que se representam como personagens de virtudes e de vícios, com destaque para as que se prostram no pessimismo. Ela, então, alerta que a cura necessariamente vem do céu, permitindo-nos recuperar a alegria pura, santa, para a vida virtuosa, vencendo os vícios, mas que deve também ser complementada pelo emprego dos remédios que lhes foram revelados, os quais têm o poder de neutralizar o princípio que produz o mal, vale dizer, a bílis (bile) negra, ou atrabílis, que seria uma forma de humor produzido pelo baço ou pelas glândulas adrenais, provocando melancolia e irritação. Posso entender então, à luz de nossa modernidade, que a abordagem da Santa se faz no tripé: religioso (também filosófico), psicológico e medicinal. O passo-a-passo para uma cura hildegardiana do “mal do século” (lembre-se, o nosso século XX/XXI…) seria: aceitar a própria condição de enfermo, ao invés de resistir ao fato, e reconquistar a “alegria beatífica”, que nos é premiada por Deus, mas que nossos vícios, como o pessimismo, a desesperança, fazem com que desapareça. Portanto, a próxima etapa seria o honesto e corajoso enfrentamento dos vícios, a fim de que se obtenha o equilíbrio emocional adequado; e a seguir vem a estratégia de uso de medicamentos herbais contra a bile negra e alimentos especialmente indicados para a boa nutrição geral.
Quanto aos vícios, como referi atrás, Hildegarda explica:
“Vê-se nesta névoa, no entanto, várias imagens de vários vícios. Significa que cada vício e seus resultados são encontrados na incredulidade, porque aquele que não tem fé está privado de todo bem. Você vê sete desses pecados, para que veja sua plenitude com suas diversas variantes. Eles não serão mostrados em suas formas reais, mas você verá seus múltiplos significados, pois o diabo, tendo muitas formas de perversidade, esforça-se por enviar o homem ao lago da perdição”.[26]
Em seu Livro dos méritos da vida, Santa Hildegarda mencionará uma sequência dos vícios que podemos albergar. Assim teremos: O amor mundano, seu comportamento e seu sentido; A petulância, seu comportamento e seu sentido; A diversão vã, seu comportamento e seu sentido; A dureza de coração, seu comportamento e seu sentido; A preguiça, seu comportamento e seu sentido; A ira seu comportamento e seu sentido; A alegria insensata, seu comportamento e seu sentido. Cada um de tais títulos será esmiuçado, assim como serão mencionadas as iniciativas para seu combate e suas penitências.[27]
A saga dos tratamentos
Para o quadro de uma psicopatologia complexa, muito antiga e de ampla prevalência, de distintas tipificações, como a depressão, o manejo só poderia também ser vasto, diversificado, sem que haja um único que seja o perfeito e completo, o universal. Mais do que nunca o desgastado rótulo “cada caso é um caso” se aplica.
Assim, tem-se a abordagem farmacológica, muito utilizada pela clínica psiquiátrica, com suas dezenas de antidepressivos (em sua “Lista de antidepressivos” a Wikipedia aponta pelo menos 50 princípios ativos “clinicamente aprovados em todo o mundo” e posicionados em suas respectivas categorias farmacológicas. Ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_antidepressivos. Também no campo de uso de um agente farmacológico cabe ser citada a “clínica da cetamina”. Esta substância química é empregada como um fármaco com propósitos anestésicos. Em 2019 a Food and Drug Administration dos Estados Unidos a aprovou para o uso em pacientes com depressão refratária.[28]
Outro recurso é o ainda polêmico Eletrochoque ou Eletroconvulsoterapia – ECT, tratamento de cunho psiquiátrico, também indicado na depressão refratária. Por seu meio uma corrente elétrica, sob uso de anestésicos e miorrelaxantes, produz uma convulsão cerebral controlada a fim de que seja reinstalado o equilíbrio dos neurotransmissores cerebrais e, daí, a remissão dos sintomas.[29],[30]
Tem-se, também, a Estimulação Magnética Transcraniana (repetitiva) – EMT, que envolve a colocação de uma bobina eletromagnética contra o couro cabeludo para transmitir um campo magnético de alta frequência ao cérebro. Provou ser eficaz no tratamento rápido da depressão em pacientes para os quais os tratamentos designados como “padrão” foram ineficazes. Aplicada no lado esquerdo do córtex pré-frontal dorsolateral, é aprovada para o tratamento da depressão no Reino Unido (NICE) e nos Estados Unidos (FDA).[31]
Outra linha, que não a psiquiátrica, e talvez mais próxima dos saberes hildegardianos no que tange à percepção integral do ser, na sua dupla manifestação corpo e alma/espírito, é a que procura conversar com seu psiquismo, como intentam a Psicologia e a Psicanálise. Elas, por intermédio de seu arsenal de escolas, técnicas e estilos, buscam fazer com que o paciente e assuma seus pnsamentos, comportamentos e traumas, e, com isso, se alivie de seus sintomas e sofrimentos, podendo expectar um novo tempo de vida.
Abordagem Religiosa e Filosófica: as religiões cristãs, sobretudo a Católica, sempre estiveram ao lado dos enfermos, prestando seus serviços, solidariedade e fé. Isto é documentado desde as peregrinações de Jesus Cristo, conforme muito relatado nos Evangelhos. Portanto, não cabe nenhuma surpresa no fato de, nesses nossos tempos de sobrevinda da “epidemia” de depressão, a igreja se mobilizar na discussão e atuação de enfrentamento a esse mal da alma. Assim, por exemplo, Matheus Ohnesorge Herz e Thomas Heimann, em longo artigo de 2022[32], “A igreja cristã como comunidade poiêmica e terapêutica no cuidado a pessoas acometidas de depressão”, dizem, de maneira inequívoca, que:
“Foi salientado que a espiritualidade é uma dimensão inseparável do ser, e o seu envolvimento no tratamento tem-se mostrado eficaz na melhora da maioria dos pacientes, sendo considerada um fator de resiliência. Nesse aspecto, a espiritualidade cristã, biblicamente fundamentada e hermeneuticamente correta, contribui imensamente no tratamento. (…)
“A partir disso, foi observado que a igreja cristã não deve se preocupar apenas em atuar no âmbito espiritual, mas também deve cuidar da vida das pessoas em sua integralidade, tendo em vista que o ensino de Jesus acerca do amor ao próximo reflete-se na compaixão e no cuidado das necessidades do próximo. (…)
“O desafio da igreja cristã no século 21, portanto, é reconhecer que tem uma grande contribuição poimênica* e terapêutica para a comunidade local e a comunidade em geral, seja por meio do ensino a respeito da importância da prevenção e do cuidado com a saúde mental como parte da integralidade do ser, seja pela disposição em cuidar daqueles que sofrem de transtornos mentais, como a depressão, a fim de auxiliar na recuperação e na conservação do bem-estar do indivíduo por meio do serviço em amor.”[33]
*Pastorear, dirigir-se ao outro para o guiar. No protestantismo: toda ou qualquer ação de acompanhamento/ajuda pastoral. Do grego poimén = pastor.
Outro bom exemplo encontramos com Maria Cândida Becker, em sua robusta dissertação de mestrado apresentada ao curso de pós-graduação em Ciências Médicas da Faculdade de Medicina da Unicamp, intitulada “Aconselhamento pastoral na depressão – uma análise psico-teológica do aconselhamento pastoral diante da depressão”. No trecho final de suas Considerações leremos:
“Diante das respostas obtidas e de modo peculiar dos ‘casos’ contados pelos entrevistados, assim como pela fluência nas respostas apreendemos que os pastores têm prazer em fazer Aconselhamento, alguns de acordo com sua vocação e habilidades desenvolvem mais que os demais, todos têm uma profunda responsabilidade diante desta atividade.
“Fica também demonstrado que a atitude dos pastores no Aconselhamento Pastoral frente a depressão pode contribuir positivamente para o reconhecimento dos sintomas e a partir daí a orientação tanto para resolução de motivos que causam a depressão expressos pelos aconselhandos, como para o encaminhamento para um tratamento mais apropriado, inclusive quando o que não é expresso é também percebido pelos pastores.
“Com a abordagem teológica e particularmente o corte junguiano da Psicologia nos foi permitido ver como os pastores de diferentes denominações protestantes, históricas e neopentecostais, vêm assimilando e utilizando aspectos terapêuticos do Aconselhamento Pastoral diante da depressão. Como as figuras arquetípicas articulam a atitude no desempenho do papel de conselheiro de cada pastor. Dentro desta perspectiva dialógica e conjugada, concluímos que diferentemente do relacionamento conturbado entre os que estudam a Saúde Mental e a Religião, como comentado no início desta dissertação, podemos afirmar, sem medo de errar, que o protestantismo, através do Aconselhamento Pastoral, representa uma grande possibilidade para o diagnóstico e o tratamento da depressão. Porém concordando com Jung devemos também dizer que: ‘O protestantismo foi e continua a ser um grande risco e, ao mesmo tempo, uma grande possibilidade’ ”.[34]
Consulte-se agora um conhecido monge beneditino, autor de muitos livros, Anselm Grün, em sua obra O tratamento espiritual da depressão.[35] No capítulo 5 – “Não bastar a si próprio”, Grün evoca a história bíblica do famoso rei Saul.
Para Anselm Grün: “Uma raiz da depressão consiste na sensação de não se bastar a si próprio” e identifica tal situação àquela do episódio bíblico do rei Saul. Ele diz:
“Na Bíblia, a imagem do homem melancólico é o rei Saul. O nome Saul significa ‘pedido’. Segundo a Bíblia, ele era muito modesto. Esta modéstia, entretanto, também tinha um lado negativo: Saul não se considera capaz de nada. Ele vive se perguntando: ‘o que eu valho?’ Ele não acredita que Deus esteja com ele e o permita a, em sua posição de rei, prestar um importante serviço ao povo”. (página 60)
No Antigo Testamento, 1 Samuel, 15:14, está escrito: “O Espírito do Senhor se retirou de Saul, e um espírito maligno, vindo da parte do Senhor, o atormentava.” Não é demais supor, como o faz o próprio Grün, que o espírito maligno aludido tenha a ver com a depressão.
Ainda conforme Grün:
“O nome Davi significa ‘amado’. Saul precisou conquistar o amor do povo através do trabalho. Davi é querido pelo povo antes mesmo de fazer qualquer coisa. Ele tem um jeito amável porque se sabe amado por Deus. O amor é o fundamento da sua vida. Davi é como que a sombra de Saul. Segundo C. G. Jung, o terapeuta suíço, a sombra representa espaços dentro de mim que eu não vivenciei até agora. Saul sempre desejou o amor. Contudo reprimia o seu próprio lado amável”. (Grifo meu – página 62.)
Mais adiante, Grün continuará:
“A depressão de Saul é curada apenas temporariamente pelas músicas da cítara de Davi. Por fim, Saul sucumbe à sua depressão. É ferido na batalha contra os filisteus e lança-se sobre a sua própria espada. Comete suicídio por não suportar a ideia de perder ou de continuar vivendo como ferido e doente. Nesta história, só podemos reconhecer a cura da depressão ao olharmos para Davi, o amado. Davi nos mostra que, dentro de nós, existe uma fonte de amor. Quando nos voltamos para ela e bebemos dela, isto tem um efeito positivo sobre a nossa depressão. Não é preciso merecer o amor; ele está dentro de nós. (…) Devemos voltar-nos para o nosso lado sofrido, para a nossa depressão, a partir da fonte interna do amor. Não devemos lutar contra a doença. Porque senão ela nos perseguirá permanentemente. Mas, se entendermos a certeza do amor que há em nós ao lado sofredor da depressão, esta pode se transformar. Weinreb se recusa a considerar uma pessoa depressiva ou um simples ‘caso a que devemos ensinar que ele vê a si próprio e o mundo de maneira errada. Afinal ele adoeceu justamente por causa dos tantos ensinamentos causais! Ele sofre de uma superdosagem de intelecto! Este é o seu drama. Ele não precisa de explicações, mas da liberação do amor, do seu fundamento soterrado’ ”. (Grifo meu páginas 62-63.)
A possibilidade hildegardiana de tratamento: virtudes e fitoterapia
Deste ponto adiante, busco apresentar as antigas contribuições da religiosa e mística Hildegarda de Binchen ao tema. Desde logo cabe um comentário de admiração, quase assombro, diante do imenso saber da Santa nos campos da botânica e da fitoterapia. É mesmo difícil supor que ela tenha obtido tal conhecimento pelas vias usuais do aprendizado: com outros, da pesquisa e do estudo próprios. Suas visões e seu contínuo diálogo com Deus, poderiam, segundo alguns, justificar tal perplexidade. (Veja-se o bom trabalho de Maria C. Martins denominado “A medicina fitoterápica de Hildegarda de Bingen”.[36])
Vida e obra de Santa Hildegarda
Pode-se encontrar na Internet uma ampla variedade de publicações, artigos, livros, vídeos e filmes, além de sites como o da The International Society of Hildegard von Bingen Studies – ISHBS (Ver: https://www.hildegard-society.org/p/home.html), que abordam, de forma mais ou menos profunda – e mais ou menos verdadeira –, aspectos da vida e da obra de Hildegarda. Destaco, em particular, o balizador livro de Régine Pernoud, Santa Hildegarda de Bingen: mística e doutora da Igreja[37]. Em complemento, é obrigatório que se cite o Vita Sanctae Hildegardis[38],de forte reputação como fonte das informações biográficas de Hidelgarda de Binchen, escrito por seu secretário, o monge Gottfried (provavelmente durante a vida de Hildegarda). Contudo, com a morte deste em 1176, a biografia restou ainda não concluída. Apenas cerca de uma década depois é que outro monge, Theoderich von Echternach, retomou o trabalho, completando-o com mais dois volumes e um prefácio.
Nos tempos atuais, que nos parecem tão aflitivos e podem ser chamados, lamentavelmente, de tempos da “pós-verdade”, quando insistem em que tudo seja relativo, aí se incluindo a própria verdade, tempos de muito cansaço, do espetáculo, tempos de desestruturação da família e do lar, da obsolescência programada em que não mais apenas equipamentos e utensílios são projetados para uma rápida descartabilidade, mas mesmo os seres vivos e até os humanos já são assim pensados e “gerenciados”, enfim, tempos de uma perplexidade avantajada mesmo diante do mais simples e elementar, vale muito a pena uma parada, um respirar fundo para se conhecer um pouco da vida de Santa Hildegarda, a “Sibila[39] do Reno”, nascida em Bermersheim vor der Höhe, no verão de 1098 e falecida no Mosteiro de Rupertsberg, a 17 de setembro de 1179, 81 anos, sepultada na Parish Church de Eibingen.[40]
Hildegarda foi uma monja beneditina, mulher de inteligência aguda e multifacetada, percorrendo campos como o da mística, filosofia, teologia, naturalismo, dramaturgia, música, poesia, aconselhamento político, e foi, ainda, abadessa beneditina do Mosteiro de Rupertsberg, em Bingen, na Alemanha. Ela fundou os mosteiros de Eibingen e Rupertsberg. Nasceu em uma família da pequena nobreza de Bermersheim, que servia aos condes de Sponheim, tendo sido a décima filha de seus pais Hildebert e Mechtild. Conta-se que àquela altura, em sua região, as famílias praticavam o costume de oferecer à Igreja seu décimo filho; todavia também é plausível, segundo os biógrafos de Hildegarda, que seja por isso, seja pelo fato de sua saúde debilitada e porque desde idade precoce (3 anos, apontam alguns) ter visões, ela foi então encaminhada pelos pais à vida religiosa.

Jutta von Sponheim (ao centro) leva Hildegarda, de oito anos, às freiras do novo convento beneditino em Disibodenberg (relevo do altar de Santa Hildegarda na igreja paroquial de Bingen)
Hildegarda escreveu vasta obra.[41] Registro brevemente, em sequência, alguns dos grandes destaques. Logo de início, sua trilogia teológica, formada pelo primeiro livro, o Liber scivias Domini, que descreve suas visões (o título é abreviação de “Scito vias Domini”: Conhecei os caminhos do Senhor), escrito entre 1141 e 1151, e o mais conhecido e apreciado durante sua vida. Um esboço deste livro foi lido e aprovado pelo papa Eugênio III, o que conferiu fama imediata a Hildegarda. O segundo livro de visões, Liber vitae meritorum (Livro dos méritos da vida), é um tratado de ética e estuda a oposição entre os vícios e as virtudes, tema comum em sua época e que, para ela, tinhe importância maior não apenas pelo aspecto ético e religioso, mas porque os vícios, como obras do mal, estavam sempre das raízes das doenças, males do corpo e da alma, e a cura pelna envolvia sempre o combate a eles. O texto é dominado por uma figura monumental que representa Cristo ou Deus, que reaparece ao longo das visões. As virtudes não são vistas individualmente, mas sua voz é ouvida, ou são representadas por símbolos. Os vícios são descritos em formas grotescas, que misturam partes humanas e animais, e falam linguagem grosseira mas muito sedutora. Fecha a trilogia o Liber divinorum operum (Livro das obras divinas), escrito quando Hildegarda contava mais de sessenta anos e já era famosa. Trata-se de vasto painel que abarca toda a criação divina, e enfoca três temas principais: o mundo da humanidade, o mundo além e a história da salvação desde Adão e Eva até o Juízo Final. No já apontado livro de Régine Pernoud, o leitor/pesquisador da vida e obra de Hildegarda encontrará muito mais de sua biografia e realizações, contextualizadas no seu período de vida.[42]
No concernente à música, citam-se duas composições de Hildegarda. O auto sacro Ordo Virtutum (A Ordem das Virtudes) e a Symphonia armonie celestium revelationum (Sinfonia da Harmonia das Revelações Celestes), um conjunto heterogêneo de setenta e sete canções para serem usadas em liturgia. A obra de Hildegarda em música e poesia, inspirada em suas visões, tem propósito moralizante e pedagógico e está alinhada a seus escritos teológicos. Para aprofundamento, recomendo uma visita ao Apêndice 1 “Um olhar sobre a obra poética e musical de Hildegarda”, da antes citada obra de Régine Pernoud[43]. Mas sempre é bom sublinhar que a música fazia parte também de sua abordagem holística para manejo das doenças, juntamente com o tratamento do corpo pela alimentação e uso de ervas (assim como a cítara de Davi para Saul…), e o tratamento do espírito pelo fortalecimento das virtudes e aproximação com Deus. A música cumpria o imprescindível papel de elevação dos sentimentos e do espírito.
Vale lembrar que de forma associada à produção musical, caminhava outra iniciativa intelectual de Hildegarda, qual seja a criação de uma espécie de nova linguagem, denominada por ela como língua ignota (língua desconhecida), a qual tinha um alfabeto próprio formado por litterae ignotae (letras desconhecidas). Esta língua ignota possuía perto de novecentas palavras que descreviam os seres fantásticos das visões de Hildegarda, e atrai até hoje o interesse de linguistas. O propósito maior desta sua iniciativa era a tentativa de encontrar palavras que conseguissem exprimir as cores e o demais que ela via em suas visões, e que a língua que ela então falava não era capaz de suprir.
Além de tudo isso, existem, ainda, outros tantos trabalhos da monja, como suas correspondências, trabalhos exegéticos, a hagiografia etc.
Em 1324, o Papa João XXII autorizou o culto público de Hildegarda, fato importante porque tal ato teve o mérito de equivalência a uma beatificação. Séculos depois, em 10 de maio de 2012, o papa Bento XVI, alemão como ela e com bastante conhecimento de seu trabalho, canonizou-a sem que fosse necessária a formalidade de um processo para tanto (ou seja, canonização equipolente). Pouco depois da canonização, no dia 7 de outubro de 2012, o mesmo Papa Bento XVI conferiu à monja o título de Doutora da Igreja[44], reconhecendo-se com isso sua santidade, ortodoxia doutrinal e sua destacada contribuição para a teologia.
O mundo natural de Hildegarda
Aqui se depara com a grande obra da Santa, o Liber subtilitatum diversarum naturarum creaturarum (Livro das propriedades – ou sutilezas – das várias criaturas da natureza), dividido em Physica (Liber simplices medicinae) (Física – Livro da medicina simples) e Causae et curae (Liber compositae medicinae) (Causas e curas – Livro da medicina complexa). Como já se disse, desconhece-se a origem desse seu conhecimento, que provavelmente se deu de forma autodidata. É possível que ela tenha recebido, durante seu noviciado, uma base terapêutica prática da monja Jutta[45], sua acolhedora, e dos monges de Disibodenberg. As superioras conventuais deveriam velar pela saúde de suas monjas (e mesmo atendiam tambémpessoas de fora dos conventos).
O conteúdo da obra acima apontada sugere que Hildegarda estava familiarizada com a medicina de Galeno, de Hipócrates, com os métodos árabes e o curandeirismo tradicional alemão, e que deve ter alargado seus conhecimentos com o atendimento a doentes no seu mosteiro. O texto abrange práticas medicinais disponíveis em sua época, derivadas das tradições pagãs greco-romanas, muçulmanas, cristãs e folclóricas, e fica clara sua concepção de que a natureza e o homem são espelhos mútuos e integrados. O Liber subtilitatum foi o primeiro livro de ciência natural escrito no Sacro Império Romano-Germânico, e permaneceu influenciando o estudo da Botânica na Europa do norte até o século XVI. Suas idéias são hoje referência para os afeiçoados à medicina holística, tanto quanto para os que hoje se esforçam na construção e divulgação de uma medicina mais humanizada e integral, com foco muito mais no paciente do que apernas em sua doença.
O Physica semelha bem uma enciclopédia e, em nove livros, relata as propriedades dos elementos naturais como os rios e lagos, o ar e a terra, as pedras preciosas, plantas, animais e minerais, sob a perspectiva de seu uso medicinal pelo homem. São, ao todo, apontadas mais de 200 ervas e 63 árvores.
A interpretação de Hildegarda não é visionária, contudo, se encaixa em sua teologia geral, avaliando a natureza sob premissas cristãs, julgando que ela, apesar de desvirtuada pela queda de Adão e Eva, remanescia com vários domínios naturais ainda intactos e portadores de valor sacramental. Das práticas terapêuticas que ela descreveu, muitas têm um interesse apenas histórico, no entanto outras surpreenderam e foram avalisadas pela ciência moderna, permanecendo válidas. Explicações precisas tanto sobre dados biográficos da autora quanto a respeito da própria estrutura da obra serão lidas no Prólogo (páginas 7-9), de José María de Sánchez de Toca y Catalá, e na Introdução (páginas 11-27), de Rafael Renedo Hijarrubia, da esmerada e recente publicação do Physica pela editora Ecclesiae.[46]
O Causae et curae, ao que parece, nunca recebeu uma redação definitiva por Hildegarda e provavelmente era mais um manual prático de uso pessoal. Dentre outros aspectos estuda a anatomia e a fisiologia do corpo humano. Para ela boa parte das doenças do homem derivam das consequências do pecado original, da perda da harmonia e moderação primitivas e da integração entre Criador, natureza e criatura. Ela não via a doença como questão exclusiva da ordem física, do corpo, mas estabelecia frequentes ligações entre os males da alma e os que ofendiam o organismo humano. Instruiu sobre higiene geral e para as gestantes e mães, e com franqueza inédita à época, abordou a sexualidade e suas disfunções, indicando remédios para as mesmas. Analisou de modo pormenorizado o desejo e o prazer, e considerava o ato sexual e o prazer de maneira positiva, comparando-os à música, e o corpo humano a um instrumento musical.
A depressão e o herbário de Hildegard
Desde logo cumpre ressaltar que, por óbvio, o que apresento da medicina hildegardiana tem um cunho de interesse histórico e não pretende que os conhecimentos terapêuticos atuais sejam substituídos, mas, quiçá, complementados.
No entanto, como já dito, sendo a depressão um mal de ampla complexidade, cuja causação envolve, no mínimo, a tríade biologia/psicologia/sociologia, com suas uniões e interseções, e, no vasto campo das tentativas farmacológicas pode abrigar um leque de opções que vão desde as moléculas sintéticas ultra modernas, obtidas pelo planejamento racional de fármacos, até a fitoterapia também científica, com suas cápsulas, pós e infusões, pode ser bastante conveniente o rastreamento de tal tipo de saber para sua atualização, reflexão e debate.
Hildegarda entendia que a depressão, ou melhor, a melancolia, que, como vimos, era o termo em seu tempo, provinha não só de alterações corporais, principalmente como as do fígado por exemplo, mas, sobretudo, de um afastamento de Deus, da fé e do equilíbrio da vida em si e da natureza. (O afastamento de Deus, ao olhar de hoje, pode bem ser isso mesmo!, tanto quanto ser simultaneamente pensado como nosso afastamento da Moral e da Ética, da Pureza e da Verdade.) Portanto, em seu manejo era preciso cuidar de corpo e alma. Tal visão não nos espanta, posto que a monja estava plenamente inserida na cosmogonia de sua época e entendia todos os seres vivos como criação e manifestação do divino, de forma completa e integral, sem separação entre corpo, alma, espírito e natureza. Nosso distanciamento de Deus desequilibraria o corpo pelo aparecimento no organismo um agente tóxico, que é a bílis negra. Logo, para tratar da melancolia (entendida como condição de tristeza profunda, uma escuridão, sombra interior, paralisia. Etimologicamente: do grego antigo melas = negro e, por extensão, triste, mais colis = bilis, portanto, literalmente, bílis negra[47]), era preciso, em sua terapêutica, compensar a escuridão interior por meio do fortalecimento da fé e do equilíbrio da vida, de um lado, e, por outro lado, ela indicava o uso de preparados antimelancólicos. A terapia hildegardiana se apoiava, assim, num conjunto de bases que se integravam e sinergizavam entre si: nutrição da alma e do corpo – por meio da fé e da espiritualidade e de seu fortalecimento: se a vida espiritual era rica e ordenada, com propósito e vocação, a superação das dificuldades e medos e o reencontro consigo ficavam robustecidos, de outra parte, o consumo de dieta adequada e de alimentos naturais somava-se à estratégica da fé e espiritualidade; vida saudável – exercícios, ar livre, contato com a natureza, e o cultivo de boas amizades; fortalecimento da imunidade – pelo preparo e uso de elixires, repouso adequado e a prevenção ao uso de substâncias tóxicas; desintoxicação – por meio de jejuns regulares, da limpeza intestinal e uso de ervas. A prática do jejum voluntário e planejado, para recuperação da fisiologia normal dos órgãos internos, era vista como muito útil.
Fitoterapia para a melancolia (depressão)
Notas:
- Sequência de nomes nos títulos: como chamamos a planta hoje; (como Hildegarda a chamava); [nome botânico científico].
- Todos os grifos são meus.
- Ao final do texto de cada erva, a página do Physica em que a mesma consta.
Dentre as inúmeras ervas dos jardins e dos livros de Hildegarda, que ela bem conhecia e sabia indicar, destaco a seguir algumas apenas, nas monografias das quais a Santa fazia alusão direta à palavra “melancolia” ou a aspectos do comportamento e da alma que podiam ser corrigidos pelo uso daquelas plantas. Interessante aproveitar para notar todo o estilo “literário” da autora, que bem revela sua percepção dita holística para os tratamentos, destacando sempre com importância tanto os aspectos físicos do organismo quanto os mentais, assim como a integração também com a natureza – o mundo natural –, suas manifestações e propriedades.
- Prímula
“Prímula (Hymelsloszel) [Primula officinalis]
“A prímula é quente. Toda a sua energia vital vem da água e do Sol. Com efeito, certas plantas são fortalecidas pelo sol, outras pela lua e outras pelo sol e pela lua. Mas esta planta pega sua força sobretudo do poder do Sol, pelo qual detém a melancolia no homem. Quando surge a melancolia em alguém, torna-o triste e agitado em sua conduta e o incita a dizer palavras contra Deus. Os espíritos do ar o notam, o acometem e, por sua persuasão, o conduzem à demência. Então, esta pessoa deve colocar prímula sobre sua carne, perto de seu coração, até que a esquente. Os espíritos do ar temem a energia do Sol e da prímula e, assim, deixarão de atormentá-lo.
Quem tem a cabeça oprimida pelos maus humores, de tal modo que tenha perdido seus sentidos, deve raspar o cabelo e colocar a prímula sobre sua cabeça. Coloque um curativo e faça o mesmo em seu peito. Mantenha esses curativos durante três dias e voltará a recuperar seus sentidos. Quem tem o corpo inteiro atormentado pela paralisia, ponha prímula em sua bebida, para que receba seu sabor. Se bebê-la com frequência, se curará”.[48] (páginas 126-127 do Physica)
Informações científicas e técnicas atualizadas à data de hoje podem ser vistas em: Portal de Plantas Medicinais, Aromáticas e Condimentares – PPMAC[49].
- Funcho
“Funcho (Feniculum) [Anethum feniculum]
“O funcho tem um calor suave e não é de natureza seca nem fria. Comido cru, não causa danos. De qualquer maneira que se coma, torna feliz uma pessoa, e lhe proporciona um calor suave, boa transpiração e boa digestão. Sua semente também é de natureza quente e é benéfica para a saúde de uma pessoa se se agrega a outras ervas nos medicamentos. Comer funcho, ou suas sementes, diariamente, em jejum, diminui o mau catarro e a matéria em decomposição, detém o mau hálito e faz com que seus olhos vejam claramente [por seu bom calor e energias benéficas].
Quem não pode dormir porque está preocupado com alguma de dificuldade, deve, se for verão, cozinhar funcho e o dobro de mil-folhas. Depois de escorrer a água, ponha as ervas quentes sobre suas têmporas, testa e cabeça, com um pano em cima delas. Pegue também sálvia fresca, umedeça com um pouco de vinho, ponha sobre seu coração e ao redor do seu pescoço, e conseguirá se acalmar para dormir. Se for inverno, cozinhe a semente de funcho e mil-folhas em água e coloque-a ao redor de sua cabeça, como acima descrito. Ponha também sálvia a em pó, umedecida com um pouco de vinho, em cima de seu coração e pescoço, e se sentirá melhor.
Quando alguém com os olhos cinzas tem uma nuvem de alguma natureza neles, e sente dor na vista, no início da dor deve prensar funcho, ou sua semente, e tomar seu suco, e, com o orvalho encontrado na grama que cresce reta e um pouco de farinha fina de trigo, deve fazer uma panqueca. Pela noite, deve atá-la ao redor dos seus olhos com um pano e melhorará. Mas se alguém tem os olhos semelhantes a nuvens tormentosas, de tal modo que não sejam nem totalmente ardentes nem totalmente turbulentos, mas sim um pouco verdes acinzentados e se sofre de nebulosidade e dor, prensará funcho, se for verão, ou, se for inverno, colocará suas sementes esmagadas em clara de ovo bem batida. Quando for deitar-se para dormir, porá isto em cima de seus olhos e diminuirá sua nebulosidade.
Se sente forte dor, como consequência de um fluxo excessivo de seus orifícios nasais, pegue funcho e quatro vezes mais de endro e ponha-o em um tijolo esquentado no fogo. Vire o funcho e o endro para que faça fumaça. Aspire esta fumaça e o seu odor pela boca e pelo nariz, e depois coma essas ervas quentes com pão. Faça-o durante quatro ou cinco dias para que os humores que fluem deixem suavemente o enfermo.
Se alguém tem má mucosidade em seu estômago enfermo, pegue funcho, uma quantidade maior de urtiga e duas vezes mais de levístico que dos outros dois. Coma-o frequentemente com farinha ou pão. Isso eliminará a mucosidade de seu estômago enfermo.
Se alguém padece de melancolia, deve esmagar funcho para extrair seu suco. Passará esse suco com frequência em sua testa, têmporas, peito e estômago, e sua melancolia cessará. Do mesmo modo, quem tenha comido carne assada, pescados, ou qualquer outro assado, e tenha dor, deve comer imediatamente funcho ou sua semente e terá menos dor.
Se os maus humores causam um tumor muito mau que se incha e produz dor ao homem em suas partes masculinas, deve pegar funcho e três vezes mais de feno-grego e um pouco de manteiga de vaca. Esmague tudo isso junto, ponha no tumor e tirará os humores danosos. Logo após, o mesmo homem deve pegar os grãos com que se faz a cerveja, esquentá-los moderadamente em água quente e colocá-los em cima do tumor.
Ademais, se a mulher grávida sofre muito no parto, cozinhe rapidamente ervas agradáveis, como o funcho e o ásaro, em água. Com a água escorrida, coloque-as, quentes, ao redor de suas coxas e parte posterior e sustente-as ali, atando-as suavemente com um pano. Isto deve aliviar a dor e fazer com que seu útero fechado se abra mais suave e facilmente.
Também pode pegar a semente de funcho e a metade de galanga, a mesma medida de fraxinela, e a metade de pilosella do que de fraxinela. Pulverize tudo e, pouco depois da comida, coloque este pó em vinho quente que não tenha fervido, filtre com um pano e beba. Uma pessoa sadia conservará a sua saúde, e a pessoa enferma será reconfortada por este pó, pois facilita uma boa digestão, dá energia e dá ao rosto uma boa bonita cor. Se se come depois de alguma comida, é benéfico tanto para pessoas sãs quanto enfermas.
Se as ovelhas começam a ficar enfermas, pegue funcho e um pouco mais de endro, ponha-os em água para que a água pegue o seu sabor. Dê para a ovelha enferma beber.” (páginas 67-69 do Physica)
- Espelta[50] como base da alimentação
“Espelta (Spelta) [Triticum spelta]
“A espelta é o melhor cereal, de natureza quente, rica e cheia de força, e mais doce que outros cereais. Dá a quem a come carne e sangue adequados, um espírito jovial e põe alegria no temperamento. De qualquer maneira que se coma, seja em pão ou em outras comidas, é boa e agradável.
“Se alguém está tão enfermo a ponto de ter dificuldade de se alimentar, pegue grãos inteiros de espelta e cozinhe-os em água. Adicione gema de ovo para que se tenha melhor gosto e se coma com maior facilidade. Dê ao enfermo para que a coma, e ele ficará curado por dentro, como um bom e são unguento.” (página 37 do Physica)
- Hissopo
“Hissopo [Hyssopus officinalis]
“O hissopo é de natureza seca e moderadamente quente. Tem tanta força que nem sequer a pedra lhe pode resistir, e assim cresce onde quer que se semeie. Se se come com frequência, purga a espuma débil e hedionda dos humores, tal como o calor quando a panela ferve, [que coloca para fora a espuma]. É útil em todas as comidas. É mais benéfico pulverizado e cozido do que cru. Quando é comido, o fígado é purificado e se limpam um pouco os pulmões. Quem tosse e lhe dói o fígado, ou quem padece de congestão nos pulmões, ou quem padece de todas essas condições, deve comer hissopo com as carnes ou com a gordura, e melhorará. Mas, se toma o hissopo sozinho, com água ou com vinho, terá mais dano do que utilidade.
“A quem dói o fígado ou os pulmões, deve pegar alcaçuz, uma medida maior de canela, e uma medida maior que as outras duas de hissopo, e uma medida ainda maior que as anteriores de funcho. Cozinhe fortemente em panela nova com mel suficiente para superar o amargor das ervas. Mantenha as ervas na panela durante nove dias e nove noites, depois filtre com um pano e beba. Se possui uma grande dor em seu fígado ou pulmão, beba este preparo todos os dias, por nove dias. Antes de beber pela manhã, como alguma coisa e logo em seguida beba-o. Pela noite, coma uma boa quantidade de comida e, quando for se deitar, beba suficientemente este líquido. No entanto, se alguém sofre de dor moderada em seu fígado ou pulmão, pode fazer o mesmo por três dias. Faça o com frequência e se curará, a menos que Deus não queira.
“[Mas, se o fígado está doente devido à melancolia, antes que a enfermidade aumente, cozinhe galinhas jovens com hissopo e coma com frequência tanto o hissopo quanto a galinha. Também mastigue frequentemente hissopo cru, que tenha sido posto previamente em vinho, e beba também o vinho. O hissopo é mais útil para quem tem essa enfermidade que para quem tenha dor nos pulmões].” (páginas 66-67 do Physica)
- Arruda
“Arruda (Rutha) [Ruta graveolens]
“A arruda cresce mais da força vital forte e completa da terra que do calor. Tem calor temperado, um pouco mais quente que frio. As energias de sua umidade são fortes e é boa contra o amargor seco que se desenvolve em uma pessoa quando são deficientes os humores corretos. É boa e mais útil crua do que pulverizada na comida. Quando se come, contém a paixão excessiva no sangue de uma pessoa. O calor da arruda atenua o calor áspero da melancolia e tempera seu frio excessivo. Quem é melancólico estará melhor quando comer arruda depois de uma refeição. Se alguém come um alimento que lhe provoca dor deve comer arruda em seguida e sua dor diminuirá.
“[Alguém que lacrimeja deve pegar arruda e o dobro de sálvia e de cerefólio. Esmague essas ervas, uma quantidade moderada, em um pilão, para tirar delas um pouco de suco. Então misture clara de ovo nessas ervas. Pela noite, quando se deitar, ponha esta mistura em cima de sua testa, estendendo-a por ambas as têmporas. Isto retirará os humores maus, como se alguém chupasse o suco de uma maçã.
“Quem tenha olhos negros, turbulentos, de modo que haja ocasionalmente uma nuvem a manchá-los de algum modo, deve pegar o suco de arruda e o dobro de mel líquido puro e misturar com um bom vinho claro. Molhe uma migalha de pão de trigo nela e coloque-a nos olhos, durante a noite, com um pano.
“Se alguém, de vez em quando, possui dor em seus rins e lombos, isto vem muitas vezes de alguma enfermidade no estômago. Então, pegue quantidades iguais de arruda e de absinto e junte uma quantidade maior de gordura, misturando bem. Deve passar vigorosamente ao redor de seus rins e lombo – onde estiver doendo – enquanto estiver perto do fogo. Se um homem às vezes se excita em deleite, até que seu esperma chegue ao ponto de emissão, mas de alguma maneira permanece retido dentro de seu corpo, de modo que começa a adoecer por causa disso, pegue arruda e um pedaço menor de absinto e extraia seu suco. A isto agregue açúcar e mel e a mesma quantidade de suco de vinho. Esquente-o cinco vezes com um pedaço de aço quente ou em uma panela nova. Depois de ter comido um pouco de comida, beba este líquido quente. Se for inverno e não tiver disponíveis essas ervas, pulverize as bagas de louro e duas vezes mais de fraxinela. Depois de comer um pouco, beba isto com o vinho esquentado em um pedaço de aço incandescente. A mucosidade nociva que havia permanecido nele será então eliminada na urina e nas fezes. Se alguém come algo rapidamente e isso lhe causa dor, coma arruda imediatamente e o dobro de sálvia temperada com sal e melhorará].” (páginas 63-64 do Physica)
- Lavanda
“Lavanda (Spica) [Lavendula spica]
“A lavanda é quente e seca, e seu calor é saudável. Quem cozinha a lavanda no vinho ou, se não tem vinho, com mel e água, e frequentemente o bebe ainda quente, diminuirá a dor no fígado e nos pulmões, e o peso no peito. Também clareia seu pensamento e seu temperamento.” (página 48 do Physica)
- Aveia
“Aveia (Avena) [Avena sativa]
“A aveia é quente, tem sabor penetrante e cheiro forte. É um alimento agradável e sadio para as pessoas saudáveis, proporciona uma mente jovial e uma inteligência nítida e clara, assim como uma aparência corada de saúde. Para os que estejam um pouco debilitados, mas não muito, é boa para comer, tanto no pão, como na farinha, e não lhes causa dano algum. Mas, para os que estejam muito enfermos e sejam de natureza fria, não é boa para comer, porque a aveia requer sempre calor e, se uma pessoa muito enferma, de natureza fria, comer pão ou farinha de aveia, os alimentos se coagulam imediatamente em seu ventre, e poderiam provocar-lhe abundância de humores, sem fortalecê-la, porque se trata de alimentos frios. Se alguém está virgichtiget*, e tem, como consequência, o espírito abatido e devaneios vãos, e por essa razão perde um pouco a cabeça, derrame sobre as pedras ardentes de uma sauna a água na qual na qual cozinhou a aveia. Repita com frequência e voltará à razão, e recobrará a saúde.” (página 36 do Physica)
*Gicht é um termo que cobre uma variedade de doenças que abarca a gota, artrite e reumatismo, lumbago, ciática, contrações nos membros e tremores, dor, impedimento ou no uso dos membros e das articulações. Pode afetar não só aos membros, mas também o rosto, cabeça, lados, rins. Santa Hildegarda explica o Gicht como causado por uma invasão de humores perigosos (página 337 do Physica).
- Vinho apagado
Embora, por óbvio, não se trate de qualquer erva, falarei aqui a respeito do vinho apagado, tão frequente nas receitas de Hildegarda para a saúde. Trata-se de um preparado medicinal obtido ao se aquecer o vinho tinto e o diluindo depois com água fria. É recomendado contra a melancolia e a raiva. O modo de preparo é: aqueça-se 60 ml de vinho (de boa qualidade) em panela inox até que ele comece a borbulhar, mas não deixar ferver. Desligar o fogo e, imediatamente juntar água fresca e fria – cerca de 1/3 daquele volume do vinho.
Em Causae et curae, página 198 (5), pode-se ler: “Se alguém tem sido provocado pela ira ou tristeza, deve rapidamente aquecer vinho até ferver, então misturar com uma pequena quantidade de água gelada. É dessa forma que as substâncias causadoras da ira serão neutralizadas.”[51]
Wighard Strehlow escreveu o livro Adiós tristeza: Cómo superar la depresión según Santa Hildegarda de Bingen[52], um tipo de manual, baseado nos textos de Hildegarda, para que se possa lograr um tratamento para a depressão. Outro livro seu (junto com Gottfried Hertzka) é A Medicina de Santa Hildegarda[53], o qual reúne descobertas e impressões dos autores a respeito da medicina de Hildegarda, sendo de particular apreço para os fins deste trabalho os capítulos IX – Fígado: bile negra e depressão e X – Vesícula biliar: icterícia e melancolia.
Para começar, frise-se ainda a surpreendentemente boa compreensão da Santa a respeito da circulação sanguínea entero-hepática. Para ela, o fígado, dentre outras nobres funções, era um receptor tanto dos fluidos bons quanto dos fluidos ruins que os alimentos e os medicamentos podiam carrear para ele. Por isso, não estranha que a lógica de seu raciocínio terapêutico sempre se voltasse para tudo aquilo que poderia proteger e/ou fortalecer tal órgão:
“O fígado é como uma tigela em uma pessoa em que o coração pulmões e estômago despejam seus fluidos, que o fígado, por sua vez, deixa fluir de volta para todos os membros do corpo, como se fosse um recipiente colocado sob uma fonte que traslada a água recebida para outros lugares. Mas se o fígado estiver cheio de buracos e debilitado, não será capaz de absorver os bons fluidos vindos do coração, pulmões e estômago. Esses fluidos e líquidos retornam para o coração, pulmões e estômago e causam ali um tipo de inundação. Se essa enfermidade aumenta muito a pessoa não será capaz de ter uma vida longa”.[54]
Santa Hildegarda, apoiada em suas visões, entende bem que seu saber, para além das questões da fisiologia sanguínea e da bioquímica, tem também uma sustentação na dinâmica das paixões da alma, sob a forma de “vícios”, que precisam ser enfrentados por meio da prática das virtudes, assim como os males de tecidos e órgãos o devem ser por meio dos medicamentos apropriados. Ela nos alerta:
“De fato, todas as coisas que estão na ordem de Deus correspondem umas às outras. As estrelas brilham com a luz da lua e a lua brilha pelo fogo do sol. Todas as criaturas estão subordinadas a outras maiores que elas e nada ultrapassa sua medida”.[55]
Como dizem Strehlow e Hertzka, “Hidelgarda conhece as verdadeiras causas das doenças do fígado. Através especialmente do excesso de comida, o metabolismo do fígado e todo o metabolismo básico corporal pode ser destruído, como ocorre com o reumatismo e o câncer”.[56] E mais, reforçando sua percepção, os autores ainda mencionam que: “Hildegarda frequentemente descreve os distúrbios metabólicos como causas das doenças no fígado, através das quais os maus fluidos (…), fluidos prejudiciais (…) e doenças relacionadas com fluidos infecciosos (…) confundem completamente o metabolismo. Algumas vezes uma pessoa sofre por anos com maus fluidos, sem ser capaz de descobrir a verdadeira causa”.[57]
Hildegarda previa o tratamento para os males do fígado, e de sua repercussão para o restante do organismo, pulmões por exemplo, por meio de comportamento alimentar adequado, do jejum e de chás como o de samambaia-língua-de-cervo. Voltando às considerações de Strehlow e Hertzka, sempre alicerçados no estudo da obra médica da Santa: “Mais do que qualquer outro órgão, o fígado sofre com os excessos, o oposto da moderação, e especialmente com a extravagância no comer, beber e no modo de vida leviano. Portanto, é importante observar as seguintes instruções de dieta: nada muito quente ou muito frio; não muito doce ou muito amargo; nada de comidas gordurosas como batatas fritas, banha ou chantili; nada de café, álcool ou nicotina. Todo o alimento para ser melhor aproveitado deve ser temperado com um pouco de vinagre de vinho, pois o calor e a força do vinagre contraem o fígado”.[58]
Há outros recursos que são aportados pelos autores acima mencionados, de acordo com o conhecimento de Hildegarda, mas finalizo destacando o já abordado hissopo, que, empregado como tempero (no frango por exemplo), pode fazer com que pacientes de doença hepática, “frequentemente tristes”, tornem-se mais felizes.[59]
E, por fim, a título de encerramento e conclusão dessa miríade de idéias e fatos em que me emaranhei, lançarei mão, uma vez ainda, desses pesquisadores Strehlow e Hertzka, que nos premiam com mais esse perfeito pensamento:
“Hildegarda explica como a humanidade quer se glorificar a si mesma através de sua vaidade, e ao invés do temor de Deus, se esforça por prestígio transitório e admiração, dizendo: ‘somente com Lúcifer podemos alcançar grande Glória!’ e retrata esse amor pela fama (inames gloria) como uma figura comparável nos dias atuais ao maestro vestido de fraque, símbolo do desejo de aplausos do mundo moderno”.[60]
Em suma: nossa luta contra a depressão já vai à conta de milênios; cada época, segundo sua filosofia e religião predominantes, elege e pratica seu próprio arsenal terapêutico; nesse tempo todo o mal em questão ainda não foi debelado, resistindo e sempre sobrevivendo insidiosamente; a acumulação dos conhecimentos de cada tempo pode e deve ser perseguida como forma de aprimoramento e reti-ratificação de nosso efetivo saber.
Notas e Referências
[1] Ver: Cintia A. Vieira Gonçales e Ana Lúcia Machado. Depressão, o mal do século: de que século? Revista Enfermagem UERJ, v. 15, n. 2, p. 298-304, abr./jun. 2007.
[2] Nicola Abbagnano. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2007. p. 638.
[3] Roberto Passos Nogueira. A depressão como o mal do século XXI: origens da noção de mal e sua atualidade nas políticas globais de saúde e de regulação de medicamentos. In: Luís Carlos G. Magalhães, Maurício M. S. Pinheiro. Instituições e desenvolvimento no Brasil: diagnósticos e uma agenda de pesquisas para as políticas públicas (Orgs.) (Cap. 7). Rio de janeiro: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 2020.
https://repositorio.ipea.gov.br/entities/publication/bab28ca7-0393-4c09-a259-40d3ae85cf18 [Acessado em 20/set./2025.]
[4] Ver: Carlos Ceia. E-Dicionário de termos literários. Mal du siècle. https://archive.is/3KUUy#selection-405.0-405.11 [Acessado em 20/setembro/2025.]
[5] Marli Piva Monteiro. O Mal do Século. Estudos de Psicanálise, Salvador • n. 30 • p. 113 – 118 • Agosto. 2007. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/pdf/ep/n30/n30a15.pdf [Acessado em 20/setembro/2025.]
[6] Idem.
[7] Juan-David Nasio. A depressão é a perda de uma ilusão. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2022. 192 p. (Ver: https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559790654/a-depressao-e-a-perda-de-uma-ilusao#:~:text=A%20depress%C3%A3o%20%C3%A9%20a%20perda,Nasio%20%2D%20Grupo%20Companhia%20das%20Letras )
[8] Bernardo Soares. Livro do desassossego. 2ª. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 2003. p. 194-196.
[9] Luis Hornstein. As depressões – afetos e humores do viver. São Paulo: Editora Via Lettera, 2008. 236 p. (Ver: https://www.vialettera.com.br/as-depressoes—afetos-e-humores-do-viver/p)
[10] Juan-David Nasio. Cómo actuar con un paciente depresivo? (Vídeo, 1h 59 min., disponível em https://www.youtube.com/watch?v=DR-81dQxX5U&t=5963s&ab_channel=J.-D.NASIO [Acessado em 10/setembro/2025.]
[11] Maria Rita Kehl. O tempo e o cão: a atualidade das depressões (2a ed.). São Paulo: Boitempo, 2015. 312 p. (https://www.boitempoeditorial.com.br/produto/o-tempo-e-o-cao-152797)
Ver também no canal do Instituto ESPE: Psicanálise e a Clínica das Depressões: https://www.youtube.com/watch?v=w4sts2P4szE
[12] Sigmund Freud. Neurose, psicose, perversão. [Trad. Maria Rita S. Moraes.] Belo Horizonte/MG: Autêntica, 2025. (Obras incompletas de Sigmund Freud; 5]. p. 99-121 – Luto e Melancolia. (Ver: https://www.grupoautentica.com.br/produto/neurose-psicose-perversao-1066.)
[13] Idem acima, p. 100.
[14] Jean Laplanche. Vocabulário de psicanálise / Laplanche e Pontalis. [Direção Daniel Lagache, tradução Pedro Tamen.] 4ª. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 345.
[15] Marcela Cristina dos Santos. Melancolia: da bile negra à corrupção dos afetos. Occursus – Revista de Filosofia, 5 (2): 205–230, 2020. Recuperado de https://revistas.uece.br/index.php/Occursus/article/view/13042 . Ver explicações da própria autora no vídeo Série Prêmio Filósofas: Marcela Cristina dos Santos, da Rede Brasileira de Mulheres Filósofas, em https://www.youtube.com/watch?v=RqhR7ngFD3U. Ver também, da autora, o livro Melancolia: da bile negra à sombra do objeto que encobre o eu. Curitiba: Editora CRV, 2023. 136 p. (Ver: https://loja.editoracrv.com.br/produtos/melancolia-da-bile-negra-a-sombra-do-objeto-que-encobre-o-eu/?srsltid=AfmBOoo9Ep6H8H876clj9cXzjSR0T9mRAhId2mwJilqiI9jyH0TgFY1M.)
[16] Segundo a Wikipedia: Problema (ou Problemata) é uma coleção aristotélica ou pseudo-aristotélica de problemas escritos num formato pergunta-resposta, cuja autenticidade tem estado sob questionamento. A coleção, gradualmente reunida pela escola peripatética, assumiu sua forma final entre o terceiro a. C. e o sexto d. C. O trabalho é dividido por tópico em trinta e oito seções, e, completo, contém novecentos problemas.
[17] Elzilaine Domingues Mendes, Terezinha de Camargo Viana, Olivier Bara. Melancolia e Depressão: Um Estudo Psicanalítico. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Vol. 30 n. 4: 423-431, 2014. [Disponível em: https://www.scielo.br/j/ptp/a/SZNKctRm7tcwQrPw37DZD4n/?format=pdf&lang=pt – Acessado em 30/out./2025.]
[18] Hans Küng. Freud e a questão da religião. Campinas: Ed. Verus (Grupo Record), 2006. 152 p.
[19] Etimologicamente, “A palavra diabo vem do latim cristão diabólus, que aparece pela primeira vez em Tertuliano entre o final do século II e o início do século III d.C. É um empréstimo do grego de diábolos. De fato, dia – em grego significa ‘através de, entre’. A palavra grega diábolos originalmente significa aquele que joga algo através ou entre os outros, daí aquele que separa ou divide e cria ódio ou raiva, ou inveja, e mais tarde na linguagem da justiça, caluniador (como um homem caluniador ou difamador, Aristóteles o usa, por exemplo). É derivado do verbo ‘diaballein’, jogar ou atirar através ou entre, separar, desunir, criar malícia ou desunião, atacar, acusar e caluniar.” (Ver: https://etimologias.dechile.net/?si.mbolo). De certa forma, diábolos é o oposto de “símbolo”, este igual a lançar conjuntamente e reunir. (Ver: https://etimologias.dechile.net/?si.mbolo.)
[20] Elizabeth Roudinesco, Michel Plon. Dicionário de psicanálise. [Trad. Vera Ribeiro, Lucy Magalhães. Supervisão da ed. bras. Marco Antonio Coutinho.] Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 362-363.
[21] Santa Hildegarda de Bingen. O Livro dos Méritos da Vida (Liber Vitae Meritorum). [Tradução: Lucas de Oliveira Fofano.] Bela Vista do Paraiso/PR: Calvariae Editorial, 2023. 313 p.
[22] Sobre a etimologia de “melancolia”:

[23] Táki A. Cordás, Matheus S. Emilio. História da melancolia. Porto Alegre/RS: Artmed, 2017. 167 p.
[24] German E. Berrios. História da Psicopatologia. Rev. latinoam. psicopatol. fundam., v.15, n. (3), 2012. [Disponível em: https://www.scielo.br/j/rlpf/a/XVPXzPSSxs4gdXwQfGx5GrD/?lang=pt#, acessado em 10/outubro/2025.]
[25] Idem acima.
[26] Santa Hildegarda de Bingen. O Livro dos Méritos da Vida (Liber Vitae Meritorum). [Tradução: Lucas de Oliveira Fofano.] Bela Vista do Paraiso/PR: Calvariae Editorial, 2023. p. 58.
[27] Idem acima, p. 58-89.
[28] ZANOS P., Gould T.D. Mechanisms of ketamine action as an antidepressant. Mol Psychiatry. 23 (4): 801-811, 2018. (Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5999402/. – Acessado em 14/setembro/2025.)
[29] Juliana Perizzolo e colaboradores. Aspectos da prática da eletroconvulsoterapia: uma revisão sistemática. R. Psiquiatr. RS, 25′(2): 327-334, mai./ago. 2003. (Disponível em: https://www.scielo.br/j/rprs/a/Z94LP9jfRJKNbn57JBrxJdc/?format=pdf&lang=pt, Acessado em 22/set./2025.)
[30] Para mais detalhes atualizados, ver: Táki A. Cordás, Matheus S. Emilio. História da melancolia. Porto Alegre/RS: Artmed, 2017. p. 147-149.
[31] Tingting Zhang, Yueqin Huang, Yi Jin, Xiaoyan Ma, Zhaorui Liu. Treatment for Major Depressive Disorder by Repetitive Transcranial Magnetic Stimulation in Different Parameters: A Randomized Double-Blinded Controlled Trial. Frontiers in Psychiatry, Vol. 12, April 2021. (Disponível em:
https://www.frontiersin.org/journals/psychiatry/articles/10.3389/fpsyt.2021.623765/full – Acessado em 23/agosto/2025.)
[32] Matheus Ohnesorge Herz, Thomas Heimann. A igreja cristã como comunidade poiêmica e terapêutica no cuidado a pessoas acometidas de depressão. Revista de Teologia do. Seminário Concórdia, vol. 83, n. 2: 25-64, 2022.
(Disponível em: http://www.revistaigrejaluterana.com.br/index.php/revista/article/view/235, acessado em 24/setembro/2025.)
[33] Idem.
[34] Maria Cândida Becker. Aconselhamento pastoral na depressão – uma análise psico-teológica do aconselhamento pastoral diante da depressão. Campinas/SP, 2003. p. 206-7. [Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Ciências Médias da Universidade Estadual de Campinas.] (Disponível em: https://repositorio.unicamp.br/acervo/detalhe/308523, acessado em 18/setembro/2025.)
[35] Anselm Grün. O tratamento espiritual da depressão – impulsos espirituais. [Trad. Gabriela Freudenreich.] 4ª. ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 2014. p. 60-65. (Ver: https://www.livrariavozes.com.br/tratamentoespiritualdadepressao8532638120/p)
[36] Maria Cristina Martins. A medicina fitoterápica de Hildegarda de Bingen. In: Luciana Calado Deplagne, Roberto Carlos de Assis (Orgs.) Tradução, transculturalidade e ensino: de Christine de Pizan à contemporaneidade. Vol. 2. João Pessoa/PB: Editora do CCTA, 2023. p. 68-82. (Disponível: https://www.academia.edu/105193462/Tradu%C3%A7%C3%A3o_transculturalidade_e_ensino – Acessado em 24/out./2025.)
[37] Régine Pernoud. Santa Hildegarda de Bingen: mística e doutora da Igreja. Dois Irmãos/RS: Minha Biblioteca Católica, 2020. 266 p.
[38] M. Klaes (ed.) Vita sanctae Hildegardis. Turnhout, Belgium: Brepols, 1993. 124 p. (Língua: Latim) [Ver: https://www.brepols.net/products/IS-9782503042619-1]
[39] Sibilas eram, na antiguidade, as mulheres oraculares.
[40] Todavia, parece que ventos de esperança passaram a soprar, na medida em que cada vez mais tem-se tido notícias de um documentado retorno da fé católica em várias partes do mundo, sobretudo entre jovens da assim chamada geração “Z”. Como exemplo, recentemente o jornal espanhol El País, de acentuada tendência progressista, publicou, em 27 de outubro passado (2025), o editorial “El giro católico” (https://elpais.com/opinion/2025-10-27/el-giro-catolico.html) e, logo depois, em 3 de novembro, o artigo “Monjas, crucifixos, êxtase místico: a cultura de volta a Deus” (tradução minha – https://elpais.com/cultura/2025-11-03/monjas-crucifijos-y-extasis-mistico-la-cultura-se-vuelve-hacia-dios.html), analisando, ambas as matérias, um “ressurgimento” do catolicismo na Espanha. O mesmo vem sendo constatado em outras partes do mundo (Novo estudo mostra que a Geração Z e os Millennials são agora os frequentadores mais assíduos de igrejas: https://religionnews.com/2025/09/03/new-study-shows-gen-z-and-millennials-are-now-the-most-regular-churchgoers/).
[41] Para haver escrito tal vasta obra, Hildegarda contou com ajudas de muito valor, qual a do monge Volmar, do mosteiro de Disobodenberg, que foi seu amigo, conselheiro, bem como secretário, ao longo de quase trinta anos. Registre-se, também, o apoio decisivo do famosíssimo Bernardo, abade de Claraval (cf. “Cartas seletas de Santa Hildegarda”, Minha Biblioteca Católica / Editora Biblioteca Católica, p. 7; pp. 5-11).
[42] Régine Pernoud. Santa Hildegarda de Bingen: mística e doutora da Igreja. Dois Irmãos/RS: Minha Biblioteca Católica, 2020. 266 p.
[43] Idem acima, p. 209-241.
[44] São quatro as doutoras da Igreja:
- Santa Catarina de Siena: freira dominicana italiana, mística e visionária, virgem consagrada, 25/março/1347 – 29/abril/1380, canonizada por Papa Pio II, 1461.
- Santa Teresa de Ávila: freira carmelita reformadora espanhola, mística, 28/março/1515 – 4/outubro/1582, canonizada por Papa Gregório XV, 1622.
- Santa Teresinha de Lisieux, Teresinha do Menino Jesus: Doctor Caritatis, freira francesa dos carmelitas descalços, 2/janeiro/1873 – 30/setembro/1897, canonizada por Papa Pio XI, 1925.
- Santa Hildegarda de Bingen: mística e abadessa beneditina alemã, 16/setembro/1098 – 17/setembro/1179, canonizada por Papa Bento XVI, 2012.
[45] Jutta Sponheim, filha do conde de Sponheim (nascida cerca de 1092, em Sponheim – falecida em 22 de dezembro de 1136, em Disibodenberg), era mestra e supervisora de um pequeno grupo de monjas de um eremitério (retiro de remitas) junto ao Mosteiro de Disibodenberg. Introduziu Hildegarda, que lhe fora confiada aos oito anos de idade, na norma de vida dos Beneditinos e ensinou-lhe as primeiras letras por meio das Escrituras. É provável que haja também lhe ensinado elementos de música. (Conforme Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hildegarda_de_Bingen – Acessado em 15/out./2025.)
[46] Santa Hildegarda de Binchen. Physica. Livro de medicina simples. Livro sobre as propriedades naturais das coisas criadas. Campinas/SP: Cedet/Eclesiae, 2024.
[47] Ver Dicionário Etimológico Castelhano, em https://etimologias.dechile.net/?melancoli.a, acessado em 10/setembro/2025, conforme abaixo:

[48] Santa Hildegarda de Binchen. Physica. Livro de medicina simples. Livro sobre as propriedades naturais das coisas criadas. Campinas/SP: Cedet/Eclesiae, 2024. p. 126-7.
[49] Prímula (conforme o PPMAC):
Nome científico: Primula veris L. / Família: Primulaceae / Sinonímia científica: Primula officinalis (L.) Hill / Partes usadas: Raiz, folha, flor. / Constituintes (princípios ativos, nutrientes, etc.): Saponinas triterpênicas, salicilatos.
Uso popular e medicinal: Prímula é erva medicinal valiosa, de longa história empregada no tratamento de condições que envolvem espasmo, cãibra, paralisia e dor reumática. A planta contém saponinas, que têm um efeito expectorante, e salicilatos (o principal ingrediente da aspirina), de efeitos anódino (mitiga ou cessa a dor), anti-inflamatório e febrífugo.
Flores e folhas são anódinas, diaforéticas (provoca transpiração excessiva e intensa), diuréticas e expectorantes. São colhidas na primavera e podem ser usadas frescas ou secas.
A corola amarela é antiespasmódica e sedativa. São recomendados para o tratamento de excesso de atividade e insônia, especialmente em crianças. Eles são potencialmente valiosos no tratamento de asma e outras condições alérgicas.
Um óleo produzido pela maceração das flores tem efeito de tratar equimose (contusão, traumatismo). A raiz contém 5 – 10% de saponinas triterpênicas, que são fortemente expectorantes, estimulam a mucosa mais líquida e facilita a depuração da fleuma.
Secas e transformadas em pó, servem contra esternutações (espirros). A raiz é levemente diurética, antirreumática e retarda a coagulação do sangue. Indicada no tratamento de tosses crônicas, especialmente as associadas a bronquite crônica e congestão catarral, gripe e outras condições febris.
Sugere-se coletar a raiz na primavera ou no outono e secar para uso posterior. As folhas têm propriedades medicinais semelhantes às raízes, porém de mais fraca ação. Um remédio homeopático é feito desta planta para tratamento de queixas renais e catarro. (Para mais detalhes ver: https://www.ppmac.org/content/primula )
[50] Segundo a Wikipedia: “A espelta ou trigo-vermelho (Triticum spelta) é uma espécie da família das gramíneas, próxima do trigo. Muito consumida em partes da Europa desde a Idade do Bronze até a Idade Média, hoje é pouco plantada, embora ainda seja cultivada na Europa Central e na Itália e tenha encontrado um novo mercado na área de alimentos saudáveis.
[51] Wighard Strehlow e Gottfried Hertzka. A Medicina de Santa Hildegarda. Bela Vista do Paraíso/PR: Calvariae Editorial, 2023. p. 130.
[52] Wighard Strehlow. Adiós tristeza: Cómo superar la depresión según Santa Hildegarda de Bingen. Madrid: Libros Libres,2017. 182 p.
[53] Wighard Strehlow e Gottfried Hertzka. A Medicina de Santa Hildegarda. Bela Vista do Paraíso/PR: Calvariae Editorial, 2023. 228 p.
[54] Trata-se de um texto de Hildegarda em seu livro Cause et curae, página 98 -10, conforme citado por Wighard Strehlow e Gottfried Hertzka. A Medicina de Santa Hildegarda. Bela Vista do Paraíso/PR: Calvariae Editorial, 2023. p. 105.
[55] Santa Hildegarda de Bingen. O Livro dos Méritos da Vida (Liber Vitae Meritorum). [Tradução: Lucas de Oliveira Fofano.] Bela Vista do Paraiso/PR: Calvariae Editorial, 2023. p. 102.
[56] Wighard Strehlow e Gottfried Hertzka. A Medicina de Santa Hildegarda. Bela Vista do Paraíso/PR: Calvariae Editorial, 2023. p. 108.
[57] Idem acima, p. 108-109.
[58] Idem, p. 111.
[59] Idem, p. 114.
[60] Idem, p. 118.


Compledmentando o artigo e suas notas, vale recomendar o bom filme:
Visão Da Vida de Hildegarda de Bingen Filme Completo Legendado,
disponível no Youtube, endereço: https://www.youtube.com/watch?v=2EH79p_YL6Q&t=4962s