Muitas vezes, os mais simples têm melhor ângulo de visão
fausto antonio de azevedo
Por oportuno, demasiadamente oportuno, tomo a liberdade de transcrever abaixo, na íntegra, um delicioso texto de Carlos Alberto Sanches, postado (https://www.youtube.com/@CarlosAlbertoSanches9/posts) em seu canal do Youtube (https://www.youtube.com/@CarlosAlbertoSanches9) bem recentemente.
“Quando eu tinha 16 anos, emprestei ‘O Anticristo’, de Nietzsche, para um amigo. Meses depois, quando fui à casa dele, sua mãe se aproximou com o livro em mãos, e me entregou rindo, quase gargalhando, com deboche: ‘Este livro é muito engraçado!’ Era uma mulher simples, pobre, daquelas italianas obesas típicas do interior, e, embora eu escondesse com um sorriso amarelo, as palavras dela me irritaram em segredo. Eu pensava: ‘Essa mulher nunca leu filosofia nenhuma, com certeza a coitada fala por ignorância’. Aquela arrogância juvenil já assinalava meu destino: dois anos depois, eu estava cursando faculdade de Humanas. Pois é típica do estudante de Humanas essa atitude mental frente ao julgamento dos ‘meros mortais’ que ‘não leram o que eu li’. Ele observa o mundo pela janela de sua biblioteca, e dela enxerga as pessoas indo e vindo, mergulhadas nas sombras de seus próprios interesses, e pensa consigo: ‘Certamente essas pessoas não sabem do sentido da própria existência. Não podem guiar-se pelos caminhos da história universal sem a luz de pessoas como eu.’ É o que Hayek chama de ‘presunção do conhecimento’ (pretence of knowledge), que é um conceito objetivo (não um ‘ad hominem’), tão profundamente arraigado na intelectualidade (principalmente moderna, eu diria) que leva muito tempo para a pessoa dar-se conta de que sofre dela, e de como ela é ridícula. A pretensão de conhecimento, também chamada ‘pretensão fatal’ ou ‘arrogância fatal’ (fatal conceit) é a crença de que o conhecimento que eu acho que detenho sobre as pessoas me permite prever seu comportamento e, assim, planejá-lo globalmente; é a crença de que a (‘minha’) razão pode redesenhar a sociedade. Para conservar esta pretensão (que está associada à libido dominandi e à vontade de poder), o intelectual é obrigado, quase por instinto, a reduzir o ser humano conceitualmente a um conjunto de leis mecânicas – daí sua afeição a filosofias naturalistas e materialistas – sobre as quais pode atuar uma razão central capaz de, do caos, fazer ordem – daí sua afeição ao dirigismo estatal. O jovem que padece disto será depois ministro ou presidente. Ele não consegue prever o que irá comer amanhã, mas acha que consegue prever e portanto tornar planificável o comportamento de milhões de almas (de milhões de Donas Marias e de Seus Zés) dotadas de livre-arbítrio e irredutíveis a qualquer tipo de previsão. Ele acha que pode fazer crescer tal setor da indústria por decreto, como se todos os fatores interconectados a tal indústria (subjetivos e objetivos) estivessem sob seu controle. Ele acha que pode determinar a direção das inovações tecno-científicas, normatizá-las, quando a inovação, em qualquer área humana, consiste justamente na quebra dos limites do paradigma vigente, sendo essencialmente imprevisível e refratária a normatizações. Claro, ele sabe mais de ciência do que o cientista, mais de tecnologia do que os inventores, mais de arte do que os artistas. A pretensão de conhecimento, quando assume o poder, estanca não só a liberdade (necessária às virtudes na vida econômica e política), mas os processos naturais da criatividade. Tudo o que há de *sólido* em nosso ambiente, em nosso meio filosófico, artístico e tecnológico, surgiu à margem do Estado, para depois este se apropriar da inovação, confiscá-la e engessá-la em ‘normas técnicas’, condenando o país inteiro e socializando as consequências nefastas da própria arrogância. Quinze anos depois do episódio na casa de meu amigo, eu mesmo seria obrigado a concordar com a mãe dele: ‘O Anticristo’ é uma obra ridícula (embora também triste). Ao seu modo, ela estava à frente do meu tempo.” (Grifos meus)
O autor, com leveza, mas precisão milimétrica, concisa – e uma necessária pitada de inteligente ironia –, faz a radiografia exata desses nossos tempos, mormente num grande país da América do Sul, em que há menos de democracia e muito de tecnocracia espalhada aos quatro cantos dos três poderes… Esse desejo de saber, a pulsão epistemofílica à qual ele alude, “arrogância juvenil”, “típica dos estudante de humanas”, que pode ser observada, contudo, igualmente nos alunos de outras áreas, medicina, por exemplo.
Segundo o excelente Dicionário de Psicanálise, de Elizabeth Roudinesco e Michel Plon (Zahar, 1998), à página 628, pulsão é um “Termo surgido na França em 1625, derivado do latim pulsio, para designar o ato de impulsionar. Empregado por Sigmund Freud a partir de 1905, tornou-se um grande conceito da doutrina psicanalítica, definido como a carga energética que se encontra na origem da atividade motora do organismo e do funcionamento psíquico inconsciente do homem.”, ou seja, numa zona de interface entre o corpóreo e o psíquico. E continuam os dois autores: “A escolha da palavra pulsão para traduzir o alemão Trieb correspondeu à preocupação de evitar qualquer confusão com instinto e tendência. Essa opção correspondia à de Sigmund Freud, que, querendo marcar a especificidade do psiquismo humano, preservou o termo Trieb, reservando Instinkt para qualificar os comportamentos animais. Em alemão como em francês ou português, os termos Trieb e pulsão remetem, por sua etimologia, à idéia de um impulso, independentemente de sua orientação e seu objetivo.”
Freud, em sua obra Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), no tópico 5 – A investigação sexual infantil / A pulsão de saber, assim nos apresenta a idéia de uma “Pulsão de Saber”: “Ao mesmo tempo em que a vida sexual da criança chega à sua primeira florescência, entre os três e os cinco anos, também se inicia nela a atividade que se inscreve na pulsão de saber ou de investigar. Essa pulsão não pode ser computada entre os componentes pulsionais elementares, nem exclusivamente subordinada à sexualidade. Sua atividade corresponde, de um lado, a uma forma sublimada de dominação e, de outro, trabalha com a energia escopofílica. Suas relações com a vida sexual entretanto, são particularmente significativas, já que constatamos pela psicanálise que, na criança, a pulsão de saber é atraída, de maneira insuspeitadamente precoce e inesperadamente intensa, pelos problemas sexuais, e talvez seja até despertada por eles.” (Edição standard brasileira das obras de Freud, Imago, 1996, volume 7, p. 183 – grifo meu). Mas também, esta pulsão “é uma modalidade pulsional que surge relativamente tarde na vida dos seres humanos, não pode ser tomada como um componente pulsional elementar, não está inteiramente subordinada à sexualidade e apresenta relação marcante com dois outros tipos de pulsão: a pulsão de dominação e a pulsão escópica.” (Conforme Liliane Camargos, em sua monografia “Quando ver é saber: O desejo de saber e sua articulação com a pulsão escópica” – https://repositorio.ufmg.br/server/api/core/bitstreams/61f585ae-75ea-4334-866a-2a94be953b48/content ). Em escritos subsequentes, Freud explorará ainda a idéia de pulsão de saber agora associada a outros aspectos do universo do psiquismo, incluindo suas patologias. Mas tais desdobramentos ficam para outra ocasião.
Pois tal pulsão, que pertence, como se sabe, ao âmbito das pulsões que nos estimulam a uma ação e a gratificação daí decorrente, de algum modo e em algum grau sempre vinculadas a uma forma de gozo, é o ímpeto de querer conhecer sempre mais, uma vontade de saber, dominar o conhecimento suposto, e disso auferir certo tipo de poder. Sigmund Freud entendeu que o desenvolvimento da humanidade, e mesmo de nosso psiquismo, deve muito à pulsão epistemofílica. As pulsões que nos acometem em nosso plano psíquico causam tensão interna e, por isso, demandam a possibilidade de sua realização satisfatória. Podemos pensar na Epistemofílica com um campo gravitacional atuante permanentemente, determinando-nos à busca de saber, algo que agora só vale com o carimbo de “científico”, como se não houvesse outras formas de saber. Assim, sob essa óptica, a saciedade da tal pulsão, encontrou seu ápice com o advento das eras do iluminismo e do positivismo: Kant e Comte que o digam… ou o cantem! E a questão sombria é que nos adultos viralizados por essa marca desde suas infâncias, a pulsão epistemofílica parece que se magnifica por uma hipertrofia crônica, e tais pessoas realmente passam a crer, psicoticamente, com todo esplendor de seus gênios, que elas sabem mais e melhor do que o restante dos mortais, e, por tal, têm não só o direito, mas o dever, de decidirem o desejo dos outros/pelos outros, impondo-lhes seu torpe suposto saber, sua cosmogonia vesga, sua messiânica missão civilizatória. (As Donas Marias estão rindo novamente…)
Muito obrigado, caro Carlos Alberto Sanches.


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