Psicanálise com… Mises!
fausto antonio de azevedo
Para P.H., por sua formatura como Economista
Ludwig (Heinrich Edler) von Mises (nascido em Lviv, que integrava o Império Austro-Húngaro, hoje Ucrânia, a 29 de setembro de 1881 e falecido em Nova Iorque, a 10 de outubro de 1973), austríaco de origem judaica, depois naturalizado americano, foi um prestigiado economista que pertenceu à famosa Escola Austríaca de economia. Alguns marcos de seu pensamento são: o estudo das ações e das escolhas humanas, a praxeologia, como estrutura lógica de nossas ações humanas, envolvidos ativamente que nos tornamos em nossos comportamentos, como o contrário do comportamento reflexivo (behaviorista); a liberdade econômica e sua importância definitiva para uma verdadeira liberdade individual; e a crítica ao socialismo.
De família pertencente à pequena nobreza austríaca, por decisão do imperador Franciso José I, em reconhecimento ao bisavô de Mises por sua ação como comerciante. Seu pai, Arthur Edler von Mises, foi engenheiro ferroviário e sua mãe, de nome Adele Landau, vinha de família preocupada com a educação, características de muita influência no ambiente cultural em que Ludwig e os irmãos se criaram.
Ainda bem jovem, Mises já era fluente em alemão, polonês, francês e entendia ucraniano. Em 1900, a família se transfere para Viena, e Ludwig ingressa na Universidade da cidade, cursando Direito e Economia. Desde então ele se empenha no estudo de economistas da renomada Escola Austríaca e, com o tempo, se torna um marcante autor, com vasta obra publicada e especial destaque para seu tratado Ação humana
Por óbvio, no breve apanhado acima não se falou em psicologia nem em psicanálise. Vamos às surpresas então.
Foi em seu livro MARXISMO DESMASCARADO [Ludwig von Mises. Marxismo desmascarado. (Trad. Alexandre S.) Campinas, SP: Vide Editorial, 2015. 159p.], que encontrei provocantes referências de Mises à psicanálise de Freud.
O livro, baseado em palestras feitas em 1952 na Biblioteca Pública de São Francisco, traz uma poderosa crítica ao marxismo sob vários de seus aspectos tidos como inconsistentes. Em alguns momentos Mises vai a temas da psicologia e da psicanálise para mais alicerçar seus argumentos, entendendo muito bem algumas das bases dos argumentos freudianos, por exemplo, para elucidar teoricamente a emotividade ou a subjetividade das teses marxistas. Mises traz o raciocínio de que nosso comportamento, por ser humano…, faz-nos agir propositalmente para que conquistemos gratificações mediante impulsos subjetivos como “sair de um estado de menor satisfação para um de maior satisfação”. Isso não estaria nas profundezas do domínio das pulsões? Alguma semelhança com a eterna e insaciável busca pelo prazer… Que tal irmos ao “Princípio do prazer” em Freud? Algum leitor amigo se lembra do postulado da insaciabilidade do desejo? Mises nos apresenta uma lógica vigorosa, denunciando como o marxismos e sua teoria da luta de classes é uma estratégia que se lastreia na exploração de sentimentos de inveja, vingança, frustração, o que, no raciocínio psicanalítico, nada mais seria do que afloramentos projetivos de conflitos internos ou mecanismos de defesa coletiva. (Sugiro conhecer: Antony MUELLER. O socialismo reflete a atitude interior de seus adeptos – A teoria socialista não tem nada a ver com ciência. (2023): https://mises.org.br/artigos/3141/o-socialismo-reflete-a-atitude-interior-de-seus-adeptos).
Em particular, quero me deter no capítulo V do mencionado livro, cujo título é “Marxismo e manipulação do homem” (início à página 73).
Logo no primeiro parágrafo Mises faz considerações a respeito do quão Marx era pouco conhecido na altura da segunda metade do século XIX. Diz ele que o grande socialista daquele tempo era Ferdinand Lassalle (ver https://www.marxists.org/portugues/dicionario/verbetes/l/lassalle.htm), que morreu num duelo de motivações privadas. Diz ainda que naquela altura as pessoas nem criticavam nem aprovavam as teses de Karl Marx e logo depois de sua morte, em 1883, publicou-se a primeira parte da crítica de Eugene von Böhm-Bawerk (ver https://mises.org/articles-interest/biography-eugen-von-bohm-bawerk-1851-1914?d7_alias_migrate=1) às doutrinas econômicas de Marx, e que já posteriormente, na década de 1890, quando o último volume do Capital foi publicado, saiu a segunda parte da crítica do citado economista austríaco, “massacrando” aquelas doutrinas de Marx.
Pouco adiante, Mises comenta que uma das razões para que o pensamento de Marx se diluísse na mentalidade pública foi o modo pelo qual Engels tentou esclarecer a teoria marxista, escrevendo na lápide de seu amigo: “Marx descobriu a lei da evolução histórica da humanidade ou seja o simples fato até agora escondido sob o manto ideológico de que os homens precisam primeiro comer beber estar abrigados e vestidos antes que possam se preocupar com política ciência arte religião e coisas do tipo”. Ora, o que se deduz daí, como acentua o próprio é Mises, é o poder dessa teoria das forças produtivas materiais sem que contudo haja qualquer explicação para o surgimento delas, para a sua formação. Assim, escreve Mises: “O materialismo histórico afirma que as forças produtivas materiais surgem no mundo – ninguém sabe como elas surgem, nem de onde elas vêm – e são elas que criam tudo o mais, ou seja, a superestrutura.” (p. 75) Eu próprio anotei, em tom jocoso ao lado na folha: é que parece uma espécie de Big Bang da economia, isto é, não só surgiu de repente, mas surgiu como e por que e por onde e com qual propósito até aqui ninguém ainda ousou dizer uma palavra…
Mais: a questão não é essa, ou seja. a de criticar a eterna existência desde sempre das forças produtivas materiais, pelo contrário, é de criticar o aspecto desse pensamento que elimina a participação do homem e de suas idiossincrasias, vulnerabilidades, singularidades e especificidades no processo. As forças produtivas materiais não só são seguramente criadas pela ação humana como seus aspectos característicos, suas nuances, suas particularidades, dependem ou derivam das particularidades do pensamento e da subjetividade dos seres humanos.
E já daí podemos, então, começar a perceber a existência de uma espécie de vasos comunicantes entre essas idéias marxistas de um lado e as idéias psicanalíticas do outro lado.
Logo adiante, na página 79, leremos o que um contemporâneo excepcional de Marx foi o filósofo Friedrich Albert Lange (ver https://plato.stanford.edu/entries/friedrich-lange/), que escreveu um livro muito conceituado, A história do marxismo, considerado não apenas em alemão mas nos países de língua inglesa, “uma das melhores introduções à filosofia de Marx”. Lange, também socialista, “não criticou Marx, mas sim o materialismo”. O materialismo marxista, para Mises, “é de um tipo muito imperfeito, porque rastreia as origens de todas as mudanças em algo que já é em si mesmo produto da mente humana.”
Vamos, agora, ao parágrafo seguinte, em que Mises sublinha:
“É importante ressaltar o fato de que as críticas ao marxismo estavam por vezes muito incorretas. Quero indicar apenas um exemplo típico. Existe uma propensão natural de antimarxistas a considerar o materialismo dialético e o marxismo como integrantes do mesmo grupo de idéias que a psicanálise freudiana. Eu não sou um psicólogo, mas preciso apontar quão confusas estão essas pessoas que acreditam que o materialismo em geral e o materialismo marxista em particular tem alguma conexão com a psicanálise freudiana.” (p. 79)
Apesar de tentarem alguma forma de aproximação, êxito nisso não tem sido convenientemente logrado, em que pese a ocorrência de textos muito bons, como, por exemplo, o do destacado autor Erich Fromm, em seu livro Meu encontro com Marx e Freud. Todavia, mantenhamos o foco em Mises. Ele nos explica o que segue, e, por sua relevância, precisarei fazer uma citação mais longa.
“Antes de Sigmund Freud [1865-1939] e Josef Breuer [1842-1925], que inauguraram todo esse método de pensamento, começarem a desenvolver suas doutrinas, era uma pressuposição incontestada entre os médicos que os problemas mentais eram causados por mudanças de origem patológica no corpo. Se um homem tivesse algo que se chamava de doença nervosa ou mental, eles procuravam no corpo por algum fator que tivesse colocado a pessoa nesse estado. Do ponto de vista do médico que lida com o corpo humano, é a única explicação possível. Contudo, às vezes eles estavam absolutamente certos quando afirmavam: ‘nós não sabemos a causa’. Seu único método era a procura por uma causa física. Podem-se dar muitos exemplos. Eu gostaria de citar apenas um. Aconteceu em 1889, apenas alguns anos antes da publicação do primeiro livro de Freud e Breuer. Um homem iminente na França cometeu suicídio. Por razões políticas e por conta de sua religião, levantou-se um questionamento sobre sua sanidade. Sua família queria provar que ele tinha uma doença mental. A fim de provar a doença para a Igreja, eles tiveram que descobrir alguma causa física. ‘Nós descobrimos certas coisas no cérebro’, eles disseram; ‘tem alguma coisa que não é comum’. Naquele tempo, as pessoas achavam que se um homem não se comporta como as outras pessoas, não tem nenhum sinal físico de anormalidade no corpo, ele estava fingindo. Às vezes as consequências são ruins, porque só se pode descobrir se uma pessoa estava fingindo ou não depois que ela morre. Neste aspecto, a psicanálise operou uma grande mudança. O caso de Rodolfo, príncipe herdeiro da Áustria [1858-1889], que se suicidou em Mayerling, levantou uma discussão semelhante.”
O trecho acima revela um Mises sensível, com notável intuição das “mecânicas” psíquicas e de estilo elegante e fluido, como no resto de seus escritos.
Adiante, fazendo o elo, Mises tece comentários a respeito do “caso” Ana O. [A respeito, ver: FREUD, Sigmund. Estudos sobre a histeria – Breuer e Freud. V. II, Srta. Anna O. (p. 57-81) In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume II. Rio de Janeiro: Imago, 1996.]:
“Breuer pensou que a origem dessa deficiência no corpo não era física, mas que ela estava na mente. Esta foi uma mudança radical no campo das ciências naturais; uma coisa dessas nunca tinha acontecido antes – uma descoberta de que fatores mentais, idéias, superstições, fábulas, idéias erradas, o que um homem pensa, o que ele acredita, pode gerar mudanças no corpo. Isso era algo que as ciências naturais tinham negado e contestado antes.” (p. 80)
E num grande arremate, Mises refere a basilar citação do próprio Freud:
“Talvez um dia, daqui muito tempo, os médicos descubram que as idéias já são o produto de algum fator físico externo ao corpo. Então a psicanálise não será mais necessária ou útil. Mas por enquanto, você precisa ao menos admitir que existe valor na descoberta que Breuer e eu fizemos e que, do ponto de vista da ciência atual, não há nada que prove a tese materialista de que toda ideia ou todo pensamento é produto de algum fator externo, assim como a urina é um produto do corpo. A psicanálise é o oposto do materialismo; é a única contribuição para o problema do ‘materialismo versus idealismo’ que veio das pesquisas empíricas com o corpo humano.” (p. 81)
Desse ponto em diante, e até a última página, 87, do capítulo 5, Mises fará vários outros comentários interessantíssimos, como, por exemplo, a questão das pessoas que abusam da psicanálise e os psicanalistas exagerados, que em tudo procuravam ver a pulsão sexual em existência e a atuação do Édipo, como, por ele próprio apontado, o caso do grande poeta francês Baudelaire e as famosas cartas para sua mãe, solicitando socorro financeiro, e interpretadas por um psicanalista como manifestações edípicas (de cunho sexual); citará também Augusto Comte, um socialista semelhante à Marx e a criação do positivismo, e sua tendência ditatorial; citará ainda a questão da engenharia social e como ela se relaciona à estrutura social e as funções do engenheiro social; fará contestação à idéia do planejamento central ou planejamento econômico e sua inviabilidade por conta da natureza humana; citará o behaviorismo, cuja filosofia quer tratar os indivíduos como se não houvesse nenhuma idéia ou falha nos homens, e que seria possível a sua padronização… (quem sabe para um modelo único de consumo ou dirigido de consumismo), aliás criticará bastante a abordagem behaviorista e fará um alerta essencial de que “é impossível derrotar uma filosofia se você não luta no campo filosófico”…
E fecha o referido capítulo com a seguinte consideração: “Mas se você não quer recorrer a uma derrubada violenta do governo – e isso é impossível se você é uma minoria, porque se você é a minoria eles o derrubarão – você só tem um método: falar com as pessoas, escrever e falar de novo”. Algo bastante atual, não é verdade?
Enfim, o “Marxismo desmascarado” de Ludwig von Mises é um livro refinado, denso, claro e didático, completamente atual, que eu ouso recomendar não só àqueles que já se afinam com o pensamento desse notável economista da escola austríaca, mas também, e sobretudo, aos que estranham sua filosofia e lhe fazem oposição.
—o0o—



0 comentários
Escrever comentário