Estamos perdendo (ou delegando coletivamente) nossa capacidade crítica?

fausto antonio de azevedo

O irlandês C. S. Lewis (Clive Staples Lewis; Belfast, 29/novembro/1898, Oxford, 22/novembro/1963) foi um autor prestigiado, professor universitário, teólogo, romancista, poeta, crítico literário… De vasta obra, tornou-se bem conhecido pelos escritos envolvendo a apologia cristã: O Problema do Sofrimento (1940), Milagres (1947) e Cristianismo Puro e Simples (1952), e os de ficção, como As Crônicas de Nárnia (1950-56), Cartas de um diabo a seu aprendiz (1942) e Trilogia Espacial (1938-45). Em Cartas de um diabo ao seu aprendiz (dedicada a seu amigo J.R.R. Tolkien), um notável livro que nos traz “as últimas notícias do Inferno e as respostas irrefutáveis do Céu”, Lewis, pelo olhar de Scrutopo, o assistente de alto escalão de “Nosso Pai Abaixo”, compõe um irônico e irreverente retrato da vida e das fraquezas humanas, apresentando-nos a correspondência entre o velho diabo e seu sobrinho Wormwood, um demônio que deve garantir a condenação de um jovem. Cartas de um diabo a seu aprendiz, clássico da literatura cristã, é a uma história envolvente a respeito da tentação, e o triunfo sobre ela. Houve um lançamento da tradução em português no Brasil, em 2017, pela Editora Thomas Nelson (208 páginas): http://www.thomasnelson.com.br/livro/cartas-de-um-diabo-a-seu-aprendiz/ .

O espanhol Juan Manuel de Prada, crítico literário, escritor, autor de diversos trabalhos (https://juanmanueldeprada.com/), apresenta-nos agora seu livro Cartas do sobrinho a seu diabo (https://juanmanueldeprada.com/agendanoticias), homenagem explícita àquela obra de Lewis, no qual nos brinda com uma análise muito contundente e perspicaz da Espanha atingida pelo coronavírus (e tal análise aplicada à Espanha, mutatis mutandis, serve a outros países também…). E o faz, como o título do livro sugere, rendendo proeminência literária a Artemísia, um demônio vaidoso e pródigo a quem foi confiada a devastação do país. Em cartas (31) dirigidas a seu tio Scrutopo, Absinto detalha todos os truques que inventou para infligir o maior dano possível aos espanhóis, antes tão ligados aos desígnios do inimigo: o confronto acirrado entre os negócios de esquerda e direita, a degeneração dos lares de idosos em horríveis “morredores”, da idolatria da ciência, das experiências da biopolítica, da imposição de máscaras em todos os contextos e da destruição da economia nacional em benefício de uma plutocracia da qual os governantes são servos lacaios. E tudo isso enquanto a fé dos homens se extingue, tanto quanto a força dos vínculos e as sustentações morais das sociedades … para sempre? Talvez o mal, afinal, não tenha a última palavra. Pode-se mesmo pensar e questionar a contribuição do filósofo David Hume, quando quer nos ensinar que o “bom” não é mais algo lastreado num critério universal de valor moral, mas é aquilo que nos é útil – mas a que trágicas consequências essa crença e seu relativismo pode nos levar? Ora, talvez uma delas é que hoje o mal não precisa mais se disfarçar para nos aparecer como um bem – ela já pode se exibir explicitamente! Diz-nos Dom Juan Manuel:

“Estas Cartas do sobrinho ao seu diabo não pretendem ser uma obra apologética, mas antes uma crônica satírica muito pungente da crise – política, social, econômica, também religiosa – desencadeada (ou talvez apenas revelada) na Espanha pela praga do coronavírus, alusões muito diretas à realidade mais estrita; crise que, desde o primeiro momento, julguei uma ocasião pitoresca para o mal tirar a máscara e se exibir em todo o seu esplendor angustiante.”

Cartas del sobrino a su diablo
Editora Homo legens,
Lançamento: 21/setembro/2020 (158 páginas),
https://homolegens.com/libro/cartas-del-sobrino-a-su-diablo/ .

Juan Manuel de Prada tem também importante atuação na imprensa escrita, principalmente no jornal ABC e na revista XLSemanal, e no suplemento ABC Cultural. Em 1998 publicou sua primeira compilação de artigos sob o título Reserva Natural, o qual emprestou o nome à primeira seção fixa publicada no jornal “El Mundo”. Seu trabalho jornalístico obteve alguns dos prêmios mais importantes da Espanha: “Julio Camba” (1997); “César González-Ruano” (2000); “Mariano de Cavia” (2006); “Joaquín Romero Murube” (2008). Entre seus livros de artigos publicados destaque-se o “Lágrimas en la lluvia – cine y literatura” (Lágrimas na chuva é o monólogo final do andróide Roy Batty em Blade Runner), compilação de textos sobre cinema e literatura, e, a respeito, veja-se o qualificado e prazeroso programa de cinema e debate, moderado por de Prada, da Intereconomía Televisión (2010-2013), com o mesmo título (vídeos disponíveis no Youtube).

Para saber mais sobre o autor e seu livro:

Para quem quiser mais do tema pandemia:

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